Alguma vez eu já disse que morro de
amores pelos livros de Elizabeth David? Adoro quando, referindo-se à cozinha
francesa, ela diz que: “A culinária de um país se apresenta como completamente
autêntica apenas naquele país. O
clima, o solo, os ingredientes, as panelas, o fogão, até a maneira de arrumar a
comida na travessa, dobrar os guardanapos e pôr a mesa, bem como a disposição
mental dos franceses para com a comida, e mesmo o próprio cheiro de suas
cozinhas enquanto trabalham ali, tudo isso tem parte no processo”. Alguns podem
chamar isso de terroir, outros de empáfia ou soberba. Enfim, uma vez que
esse texto está contido em um livro sobre cozinha francesa, obviamente são os
franceses que estão sendo analisados, mas...pare e pense apenas um pouquinho:
já se imaginou comendo uma tapioca embaixo da Torre Eiffel ou um acarajé à beira do Tâmisa?
Bom, retornando ao livro e à receita,
também amo o modo como a autora descreve o modo de preparo desse delicado
prato: "Em resumo, você tem que deixar de molho 1 kg de bacalhau salgado
em água fria por, pelo menos, 12 horas. Escorra-o e lave-o, ponha-o numa panela
com outra água fria, leve à fervura muito vagarosamente e aí retire-o de
imediato do fogo. Retire todas as espinhas, divida o peixe em lascas, junte 1
ou 2 dentes de alho amassados e leve ao fogo brando. Em panelas pequenas,
separadas, ponha um pouco de azeite de oliva e um pouco de leite. Mantenha as
três panelas num fogo tão brando que os conteúdos nunca cheguem a ficar mais do
que mornos. Enquanto você amassa o peixe com uma colher de pau, vá juntando,
lenta e alternadamente, um pouco de leite e de azeite, até que tudo tenha sido
usado e o bacalhau tenha alcançado a consistência de um creme espesso. Tudo
isso, no entanto, é mais rápido de dizer do que de fazer. Exige muita paciência
e também uma energia considerável (o famoso chef Durand, de Nîmes, que tem uma
receita em seu livro, publicado em 1830, especifica que são necessárias duas
pessoas para fazer a brandade, uma para despejar, a outra para mexer e girar a
panela)".
Nota da autora: "O bacalhau salgado
deverá sempre ficar de molho e ser cozido em vasilhas de porcelana, cerâmica
vitrificada ou esmaltada. O metal tende a escurecê-lo. E, se sua brandade ficou
oleosa ou desandou, o remédio é juntar a ela um pouco de purê de batata
liso".
De minha parte posso dizer que o prato
não é assim tão trabalhoso, mas requer um preparo delicado. Pesquisando
diversos livros e provando brandades e mais brandades cheguei à receita abaixo. Diria que é um
prato de bacalhau que agrada até os que não gostam desse peixe.
La Brandade de Morue
Ingredientes
300 g de bacalhau dessalgado
Leite integral (o suficiente para cobrir
o bacalhau)
2 dentes de alho amassado
160 ml de azeite de oliva extra virgem
130 ml de creme de leite fresco
250 g de batata cozinha e amassada
(opcional, veja a nota de Elizabeth David no texto acima)
Cebolinha fresca
Sal e pimenta do reino moída na hora
Fatias de pão grelhadas para acompanhar
Modo de preparo
1. Cozinhe o bacalhau no leite.
2. Escorra-o, descarte o leite, retire a
pele, cartilagens, espinhas e desfie bem.
3. Transfira o bacalhau para uma panela
pequena, junte o alho amassado e leve ao fogo baixo.
4. Adicione, continuamente, mas
vagarosamente, o azeite e o creme de leite, mexendo sempre até obter uma
emulsão (É um processo delicado, com a ajuda de uma colher de serviço o
bacalhau vai sendo amassado enquanto o azeite e o creme são adicionados).
5. Se necessário, junte o purê de batatas.
6. Junte a cebolinha e tempere com sal (se
necessário) e pimenta.
7. Sirva com fatias de pão grelhadas.
Notas:
O livro citado é Cozinha Regional Francesa, de Elizabeth David. Editora Companhia das Letras.
As fotos são de autoria de Glau Macedo.