Espaço dedicado a pensamentos, poesias & devaneios. Sabor, comida, viagens, fotos, livros e o que mais der na telha (ou no forno).

sábado, 31 de março de 2012

Pátria: onde os anjos temem pisar...



LAUGHTER ECHOES BUT DOES NOT ANSWER







MONEY TALKS BUT DOES NOT REMEMBER




Índia!
Lado a Lado
SESC Belenzinho
São Paulo, 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

Urgências efêmeras

Março. Alguma manhã do mês de março. Ou tarde. Já não sei. Descalço, parado no meio da sala. Olhos fixos na estante de livros, vasculhando as capas amarelas, azuis, empoeiradas, letras douradas, negras, apagadas, ilegíveis. Algumas lombadas se aproximando do meu rosto prontas para devorar-me. Outras se afastando, envergonhadas. Afinal, o que vim procurar? Entre o segundo anterior e o segundo presente algo se perdeu imerso em uma imensa nuvem de informações. E mais um; dois ou mais segundos já se passaram. Estou aqui, parado, sem sapatos, cabelos embaralhados, sem nem ao menos saber o porquê das coisas. Tateando pensamentos. Apenas sei que não sei. Entre o segundo anterior e o presente o telefone deve ter tocado, alguém deve ter passado uma carta por baixo da porta, três emails chegaram, lembrei do cinema, do teatro, da aula, da reunião de número 572 e do projeto de número 238. E estou aqui. Eu e eles. Os livros. Encarando-me envergonhados.

É este o cenário atual. O mundo contemporâneo é feito de urgências. Todas elas efêmeras. Curtimos, tuitamos, lemos superficialmente as duas primeiras linhas, palpitamos, seguimos. Mecanicamente. Porque assim deve ser. Porque não importa o que eu falei, não importa o que li. O outro também não se importará. Falta cuidado, poesia e leveza. Falta delicadeza nas relações. Estamos nos mecanizando mais e mais a cada dia, preenchendo-nos de urgências vazias. Banalizamos nossas relações diariamente, enfraquecemos laços.

Nossa tarefa mais urgente é responder as urgências banais. Mas só vale se respondermos com ares de coisa importante, com aquele Q de fim de mundo. Com aquela propriedade dos grandes entendedores. Com aquele peso e mistério do celular atendido no meio da aula, com aquela intensidade do email que chega no meio de mais uma reunião. Com aquela certeza que interrompe o almoço ou o jantar. São todas urgências. Todas banais e cotidianas.

A urgência, principalmente a não urgente, nos tirou o mais precioso da vida. A possibilidade da contemplação. A possibilidade do erro, do retorno e do conserto. Nos tirou a possibilidade do concerto. A dádiva da pausa, da respiração. A possibilidade da construção coletiva. Da crítica construtiva. Perdemos. E feio. Optamos pelo mais fácil, mais rápido, momentâneo e lucrativo. Enfim, nos limitamos a um simples aperto de botão, um curtir - que será esquecido em 3, 2, 1...


sábado, 17 de março de 2012

Livros-poesia


ANTES DE ENTRAR
NA COZINHA

Ponha o avental.
Lave as mãos.
Se vai fazer um assado
ou fritar qualquer coisa,
proteja os cabelos
com um lenço bonito.
Feche a porta...
...assim os cheiros não se espalharão
pela casa!


"...uma das mais interessantes manifestações de toda a civilização antiga - tem sido esquecida, ou menos atendida (...), justamente uma das que melhor revelam o génio de uma raça: a cozinha!"
Eça de Queiroz



"A vovó Prudenciana teve 10 filhos: Antônio, José, João, Maria, Tito, Joaquim, Francisco, Carlota, Ana e Pedro, sendo um médico, um engenheiro civil, um advogado, um bancário, um comerciante, três fazendeiros e as mulheres do lar, uma centena de netos"
Edgar Pereira da Silva, em Doce Arte da Época Imperial Mineira





"Frida grew the plants and flowers herself. She went to the gardens every day to see how they had grow and which were in bloom. These she put in her hair or distributed around the house"
Frida's Fiestas




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Abbie Zabar. The Potted Herb.
Beatriz Berrini e colaboradores. Comer e Beber com Eça de Queiroz.
Denise Perret e Maria de Lourdes Modesto. A colher de pau.
Edgar Pereira da Silva. Doce Arte da Época Imperial Mineira.
Éditions France Loisirs. Les meilleures recettes de nos terroir.
Guadalupe Rivera e Marie-Pierre Colle. Frida's Fiestas.
Isabel Allende. Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos.
Monja Gyoku En. O Zen na Cozinha.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Livros-paisagem








ÉMILE ZOLA,
O ventre de Paris

As verduras, alfaces, escarolas, chicórias, abertas e ainda pesadas de húmus, mostravam seus corações radiosos; os maços de espinafre e de azedas, os buquês de alcachofras, os montículos de feijões e de ervilhas, as pilhas de alfaces-romanas, atadas com uma palha, cantavam toda a gama do verde, da laca verde das cascas ao verde-escuro das folhas; gama elevada que vai num diminuendo até as pintas dos pés de aipo e dos molhos de alho-poró. Mas as notas agudas, as que cantavam mais alto, eram sempre as manchas vivas das cenouras, as manchas puras dos nabos, distribuídas em quantidades prodigiosas ao longo do mercado, iluminando-o com a combinação de suas duas cores. Na esquina da rua des Halles, os repolhos formavam verdadeiras montanhas; os enormes repolhos brancos, compactos e duros como bolas de metal alvacento; as couves-crespas, cujas folhas grandes pareciam bacias de bronze; os repolhos vermelhos, que a aurora transfigurava em florações soberbas, violáceas, com manchas de carmim e de vermelho escuro. No outro extremo, no cruzamento da ponta Saint-Eustache, o acesso à rua Rambuteau estava bloqueado por uma barricada de abóboras alaranjadas, em duas fileiras, esparramando-se e dilatando seus ventres.

Trecho extraído de A Fabulosa História dos Legumes, de Évelyne Bloch-Dano