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domingo, 17 de junho de 2012

Caipirices. Um texto sobre moda, música & comida.


Anota aí! Tudo sem medida: bacon, farinha de milho, ovos picados, couve, azeite e um salzinho. Sal Kosher, do Himalaia, defumado ou pink? Deixa de palhaçada e pega aquele que a sua mão alcançar. Tá bom assim? E não me peça a receita pelo amor de Deus. Sim, sou professor de gastronomia e estou pedindo para você - pelo amor de Deus - deixar de lado a receita! Garanto que fica bom. Sabe por quê? Porque essa receita tem um Q de caipirice. Já devo ter falado escrito umas 458 vezes sobre a minha admiração pela simplicidade, mas não custa abusar mais uma vez. Meio assim, um mantra caipira.

Pra começar essa conversinha, estava prestes a soltar: “Sou um menino da capital...” Menino? “Sou um cara da capital...” Cara? Portanto, digo que nasci na capital. Sou de São Paulo. Essa cidade feia. Cada vez mais feia. E suja, aquela sujeira entranhada. Mas a gente vai se acostumando com a feiura e a sujeira do dia a dia. E vamos inclusive “pegando” amor. Afinal, por uma infinidade de motivos, chega um momento em nossas vidas que não há para onde escapar. Portanto, deitemos e rolemos na sujeira cinza dessa cidade cinza habitada por pessoas igualmente cinzas.

Sabe o que eu acho? Tá faltando autenticidade no mercado. Tá faltando um feijão sincero e mingau de maiZena (pronto! Confessei minha comfort food...deite e role de rir). A cesta básica já não é tão mais básica e já não sabemos o que estamos comendo. Aliás, o que é o básico hoje? Pra sair precisamos compor um personagem e, obrigatoriamente, tem que rolar um reboco, uns brilhos, umas peças de roupa esmagando um lugar e folgando em outro. As mulheres então? Dó...só posso dizer isso...dó! Abrindo parênteses: ontem mesmo vi uma garota passeando pelos Jardins e fiquei na dúvida se era ela quem carregava o Louboutin ou era ele que a carregava. As pernas da pobrezinha balançavam mais que vara verde (usando as sábias palavras de minha falecida avó) na tentativa desequilibrada de equilibrar-se sobre a belíssima sola vermelha de bons milhares de reais. Peço desculpas, não resisti, e como já estava com a idéia do texto na cabeça as perninhas trêmulas vieram a calhar.

É. É triste e doloroso, mas não há nada de caipirice nessa mundanidade, suburbanidade e metropolitanidade paulistana. Tenho uma pergunta: a cidade anda mudando ou então sou eu que envelheço na cidade? E já que a música entrou no texto, mesmo que obliquamente, aproveito para dizer que é um sábio quem disse que Não Existe Amor em SP (pode confiar! clique sem medo, não roubarei a sua senha).

Não há nem amarelos, nem azuis e nem verdes por aqui. E muito menos, caipirices. Falta aquela sinceridade no olhar, a calça velha e folgada, o pé descalço no cimento e uma mãe gritando: “Vai ficar doente com esse pé no chão!!!”

Criolo, só espero uma coisa: que você também esteja certo ao dizer que não precisamos morrer pra ver Deus.

Nota: foto de Glau Macedo.

25 comentários:

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    1. Obrigado querida Joyce! Não esqueça que suas mãos mexeram essa farofa ;)
      Bj

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  2. Surpreendente Bergamo, a maior flor do mundo para vc!

    Bj

    Celina

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    1. Obrigado Celina! Desejo-lhe o mesmo. Flores caipiras para nós!
      Bj

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    2. Acho que a maior flor do mundo não foi...

      http://www.youtube.com/watch?v=YUJ7cDSuS1U

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  3. Simplicidade é artigo de luxo!
    Adorei o texto. Lido e compartilhado.

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    1. Obrigado Luciana! E bota luxo nisso!!!
      Bj

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  4. Também estou cansada de tanta culinarice. Saudade de comidinha simples e bem temperadinha, valendo até um pouco de banha- colesterol que se dane.

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  5. A-D-O-R-E-I...realmente, eu ando tendo essas sensações de cansaço extremo com tudo e com todos. Saudades mesmo de pé no chão e de me lambuzar com uma comidinha básica porém gostosa. É por essas e outras que adoro seus textos com alma. Tá ai...tá faltando alma nas coisas e nas pessoas que vivem usando máscaras e já nem sabem quem na realidade são. Fim de mundo? Permita-me te enviar um bjo bem gde no coração.

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    1. Olá Ane. Algo está faltando. Alma, autenticidade...sei lá. Cada um dá um nome!
      Bj

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  6. rs... é por isso que vivo enfinado o "pé na lama" de gonçalves! Adorei o texto Chef! abraços

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    1. Faz bem!
      Abraços e obrigado pela visita virtual.

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  7. A cidade até pode ser feia, com pessoas cada vez mais feias mas bem analisada por gente boa, com alma grande e olhos que sabem ver a beleza da simplicidade ;)

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    1. Lindas palavras querida Ameixinha. Aliás, como tudo o que sempre diz.
      Beijos :)

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  8. Que só os bons leiam : faço feijão seguindo o aprendizado de minha avó, lá do interior do Rio Grande do Sul. Uso, para temperar, louro, cebola e alho bem picadinhos, refogados na banha de porco, algo que me remete, imediatamente, aos sabores da infância.
    Parabéns pelo texto ! Patrícia Reis

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  9. Ah... Bergamo, os amarelos, azuis e verdes que lhe faltam, são fartos em minha casinha. Há também, os laranjas, os vermelhos e roxos. O amor a transformou em um lugar encantando, assim como são as feiras de rua, com a sua fartura de cores, sabores e texturas... Aqui, ficar de pé no chão é saúde.
    Quando escuto os sorrisos da minha menininha ao longe colhendo os ramos de alecrins, tenho certeza que Deus brinca com ela, acho que ele mora por lá, fica passeando pela minha horta, pomar ou jardim.

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    1. Kelsene,
      Mesmo que as cores faltem à essa cidade cinza, não podemos desconsiderar a nossa infinita possibilidade de criação.
      Abraços!

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  10. Alguém me perguntou outro dia: "por qu sua cozinha é cinza e preta?" e eu respondi, plagiando um graitti -"porqu minhas idéias sào coloridas!". Vc já conhece meu ponto de vista sobre o excesso de tecnicidades na culinaria versus a falta de substância. Abraços!

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    1. Obrigado pela visita Wair. Preciso comentar seu último fantástico texto.
      Abraços

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  11. Nooossa Bergamo... juro que nunca tinha visto ninguém dar,assim, um soco no estomago da cidade e nas festas juninas, como vc fez aqui! Rss rss
    Bjs!

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    1. Hahaha...na cidade sim! Mas não nas festas juninas. Estou enaltecendo as caipirices!
      Bj

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