Espaço dedicado a pensamentos, poesias & devaneios. Sabor, comida, viagens, fotos, livros e o que mais der na telha (ou no forno).

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O ovo imperfeito

Definitivamente, é um campo obscuro esse onde vivem e convivem a culinária e a gastronomia.

Gastronomia - do grego gastros (estômago) e nómos (regra, lei). Incluída oficialmente nos dicionários pela Académie Française em 1835 (LAROUSSE, 2009).

Gastronome – Terme un peu pédant, datant du commencement du XIXe siècle, désignant les adeptes de la gastronomie (LAROUSSE, 1948).

No século XIX, Brillat-Savarin (1995) definiu que “a gastronomia é o conhecimento fundamentado de tudo o que se refere ao homem, na medida em que ele se alimenta”. Segundo esse autor, a gastronomia pertence à história natural, à física e à química, à culinária, ao comércio e à economia política. Enfim, “a gastronomia governa a vida inteira do homem”. Carlo Petrini (2009), bem mais recentemente, soma a esse conjunto as outras ciências naturais, a medicina, a tecnologia e a indústria, defendendo os princípios de uma nova gastronomia sob a ótica da sustentabilidade. Um Brillat-Savarin renovado, menos fútil e mais preocupado com as questões da biodiversidade e o futuro da comida.
Fica claro que ambos tentam definir o que é a gastronomia, isolando-a da culinária. Afinal, seria a culinária campo de responsabilidade apenas das donas de casa, cozinheiras e quituteiras? Uma culinária que se mantém estagnada e presa aos fogões domésticos, enquanto que as cozinhas de restaurantes são invadidas por uma cascata de novas idéias e modismos trazidas por jovens (ou nem tanto) cozinheiros - alguns mais técnicos, outros mais empíricos, alguns emocionais, tecnoemocionais, construtivistas etc, etc. Seria essa a diferença entre culinária e gastronomia?

Entendo que na culinária podemos também observar o envolvimento das ciências naturais, da fisiologia, da medicina, da física e da química. E talvez a diferença resida nos saberes - no saber empírico e no saber científico, ou ainda entre o alimentar/nutrir e o alimentar/surpreender. Enquanto o primeiro saber pertenceria à culinária das donas de casa, a “ciência” seria o pré-requisito para se fazer gastronomia – o que nem sempre é observado nos cardápios dos chefs.
Nesse sentido, não bastaria ao chef fazer combinações inusitadas ou “desconstruir” pratos para se fazer gastronomia. Hervé This, em Building a Meal (2009), descreve um experimento desastroso de um chef, que por não entender o prato tradicional do qual a sua criação derivou, não obtém êxito em sua “releitura”. É a visão míope da gastronomia, que mete constantemente os pés pelas mãos.

Há tanta ciência e cultura no ovo frito da roça quanto no ovo perfeito.



LAROUSSE Gastronomique. Paris: Librarie Larousse - Paris, 1948.
________. London: Hamlyn, 2009.
PETRINI, Carlo. Slow Food: princípios da nova gastronomia. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009.

SAVARIN, Brillat. A fisiologia do gosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
THIS, Hervé. Building a meal: from molecular gastronomy to culinary arts and traditions of the table. New York: Columbia University Press, 2009.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mais Plantão Blog do Bergamo: sem medo da gordura


Sal, ervas, marinada, um "pouquinho" (aham) de gordura, cocção lenta...hummm...esse é o confit.
Quer saber mais? clique aqui. Tem colaboração minha por lá.

Plantão Blog do Bergamo: Quem quer pão?


Quem não gosta de um pão quentinho e com a casquinha crocante? Todo mundo, não?
Mas isso não é milagre não, existe muito estudo para que essas delícias cheguem à sua mesa!
Eu e o Chef Boulanger Rogério Shimura colaboramos com a revista Food Service News em uma matéria sobre a profissão de padeiro, ou se preferir, de boulanger.
A matéria foi publicada no número 54 (Julho/Agosto 2011) da revista Food Service News. Caso queira ler a matéria completa, clique aqui. Segue abaixo apenas a minha colaboração.

Com a palavra,
o coordenador

“Há cinco anos havia um preconceito muito grande com a gastronomia, ninguém tinha muito respeito pela área. Hoje, a situação está mudando”, é o que revela Marcelo Bergamo, coordenador do curso de gastronomia da Universidade Metodista de São Paulo. Segundo Bergamo, essa mudança de perspectiva se deve aos cursos de gastronomia e a mídia que estão abordando, cada vez mais, sobre a profissão.
Hoje, a profissão de chef de cozinha está ganhando espaço e recebendo influências de outras culturas. As próprias nomeações de cargos são dadas em outras línguas para ganhar mais credibilidade. De acordo com Bergamo, boulanger é uma palavra francesa que designa padeiro. “Ele é um padeiro também, mas estamos usando uma nomenclatura de uma outra língua. O que acaba trazendo um certo charme, um pouco de status, mas é a mesma coisa”, explica.
Bergamo explica também que não existe diploma para ser chef, após a conclusão do curso de gastronomia o profissional será cozinheiro, porém os anos de prática e especializações lhe dão a posição de chef. “Quando você denomina alguém como chef, é possível saber a posição dele dentro da cozinha, da padaria ou da confeitaria. Ele é um profissional que está em um cargo mais elevado em relação aos outros e que, teoricamente, tenha mais conhecimento e experiência”, revela.
A busca por especializações é imposta não só pelo mercado de trabalho, mas pela própria sociedade que, segundo o coordenador Bergamo, está cada vez mais exigente. “Antes o público leigo só conhecia pãozinho francês e baguete, agora as pessoas já conhecem os pães que são diferenciados, com nozes, frutas secas, tomate seco, uva passa e fermentação natural. As pessoas estão procurando novos produtos, como o mercado procura proporcionar isso aos clientes, existe a exigência que o profissional saiba e entenda mais. Assim é possível suprir esse mercado gourmet”, aponta.
De acordo com Bergamo, para conseguir um conhecimento específico é necessário fazer cursos na área de interesse do profissional, afinal a universidade os forma como generalistas. “Eu sempre falo com os alunos, se você quer ser um padeiro ou um boulanger, ou se você quer ser um confeiteiro ou um pâtissier [palavra em francês para confeiteiro], precisa sim fazer outros cursos. Sair do Brasil é importante, pois ajuda inclusive na vida pessoal das pessoas, abre a cabeça para novas ideias e possibilidades. Existindo essa oportunidade é um diferencial”, afirma.
O coordenador também dá dicas para o estudante que optou por seguir carreira na área de panificação. Para ele, é necessário fazer um bom estágio e estar antenado com as novidades do mercado. “A faculdade não é a formação completa para o aluno. Se ele quer seguir com a profissão boulanger, o mais interessante é procurar um bom estágio nessa área, uma padaria, uma boulangerie, para aprender outras técnicas que a gente não conseguiu passar com o módulo de panificação, durante um semestre do curso. E claro, sempre se manter atualizado, frequentando feiras, congressos e, principalmente, a FIPAN (Feira Internacional da Panificação, Confeitaria e do Varejo Independente de Alimentos), a mais importante do Brasil”, conclui.

domingo, 24 de julho de 2011

Sessão pequenos prazeres: um bolo, lírios, louças e lembranças


Um Bolo Amarelo

Receita do blog Mesa para 4

Ingredientes
200 g de manteiga
350 g de açúcar refinado
4 ovos
350 g de farinha de trigo
60 g de farinha custard
2 col. (chá) de fermento químico em pó
1 pitada de sal
200 ml de leite integral

Modo de preparo
1. Na batedeira bata o açúcar e a manteiga até obter um creme leve.
2. Adicione os ovos, um a um.
3. Fora da batedeira, acrescente os secos e o leite.
4. Leve ao forno até que doure.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Lado B

Lugares impregnam
e ferem,
lixam nossa pele.
Espaço
que tatua,
na retina
assimilado.
Com ferro,
gado marcado.
Por fim,
ficam a saudade e a intenção,
o laço
e a meditação.












Portugal
2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Tarde incomum

Chuva sem trégua. Hora da siesta; portas cerradas. Uma catedral monumental prestes a nos esmagar. O botafumeiro planando sobre as nossas cabeças. Peregrinos e curiosos vagando por uma cidade cinza, enevoada. Pão, água e vinho. Como ratos perdidos à procura de caminhos e respostas.





♦♦♦

Hospedería San Martín Pinario
_______________________

Menú del día
VIERNES 8 JULIO DE 2011

Primeros:
• LENTEJAS ESTOFADAS
• ENSALADA DE TOMATE, ATUN Y QUESO
Segundos:
• BACALAO A LA VIZCAINA
• FILETE DE CERDO PLANCHA C/ ENSALADA
Postres:
• QUESO C/ MEMBRILLO
• NATILLAS CASERAS
• PUDING DE LA CASA

PAN, AGUA, VINO, CAFE 12




♦♦♦







Santiago de Compostela
2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Esquentando o esqueleto

Uma tarde azul. O sol impiedoso esquentando o corpo e a cabeça. Ruas quase vazias, um encontro de escoteiros e muitas flores. A curiosa combinação de um templo romano e igrejas católicas. Uma inacreditável capela construída com ossos - "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos" - ok, já entendi, não precisam repetir! Por fim, uma deliciosa alheira frita e pé na estrada rumo a novas descobertas.














Évora

2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Do que são feitos os sonhos?


De portas antigas
e jardins misteriosos
De flores encantadas
e árvores transmutadas

De mosaicos
e vidros coloridos
Janelas abertas
e arcos escancarados

São eróticos doces
mornos
suaves
sussurrantes

Como gatos em sua vigília sonolenta
Sonhos são labirintos sem começo ou fim
Monstros de pedra corpulenta
Sonhos são apenas o sim




















Parque e Palácio da Pena
Castelo dos Mouros
Quinta da Regaleira

Sintra
2011