Espaço dedicado a pensamentos, poesias & devaneios. Sabor, comida, viagens, fotos, livros e o que mais der na telha (ou no forno).

domingo, 27 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Referenciando

Recentemente, li uma notícia que me fez refletir sobre como lidamos - ou como deveríamos lidar - com a transmissão do saber: Professor de uma famosa instituição de ensino é demitido por plágio em pesquisa.
Por razões óbvias, escrevo a partir de um ponto de vista acadêmico. Entretanto, pela seriedade e abrangência da questão, entendo que tal reflexão também poderá ser útil fora da sala de aula.
A construção do conhecimento, sem dúvida alguma, é uma tarefa coletiva. Pouco ou nada se faz sem que nos debrucemos sobre as tentativas, erros e acertos de outros. Perdoem a minha ingenuidade, mas acho que já se foi o tempo das grandes descobertas individuais protagonizadas por homens visionários, e nem é sobre isso que falo aqui.
Uma das obrigações de um professor é procurar, estudar e transmitir. Pouco se cria. Apenas vasculhamos, juntamos e divulgamos. A criação pode, eventualmente, surgir na maneira como transmitiremos esses saberes (as tão faladas práticas pedagógicas).
Nesse sentido, colhemos de alguns e semeamos entre outros. Alguns anos de experiência como docente nos liberta de alguns medos e nos deixa mais livres e confiantes dentro da sala de aula. Qualquer “material” pode ser usado no ambiente acadêmico – revistas, jornais, livros, filmes, comerciais, congressos, fotos, viagens, cardápios de restaurantes, uma conversa etc. Talvez seja aí que entra a criatividade do docente - juntar tudo isso e dar uma cara de aula, ou pelo menos, cumprir os objetivos daquela aula.
Porém, tudo isso que citei acima foi criado por alguém – um autor, uma agência ou um grupo de pesquisadores, os quais, certamente, usaram outros tantos como referência.
É nesse momento que entra a ética profissional e a tão discutida questão do plágio. Não é incompetência e muito menos humilhação nos nutrirmos de outros estudos. Essa troca é saudável e enriquecedora. E essa prática torna-se mais rica a partir do momento que citamos aqueles que nos inspiraram e nos auxiliaram na transmissão do saber.
Não falo apenas sobre ciência e assuntos estritamente acadêmicos, mas também sobre muitas situações cotidianas. Apropriar-se do que é do outro é desonesto e tem a capacidade de quebrar a formação da rede dos saberes, uma vez que impossibilita que o ouvinte ou o leitor tenha acesso ao todo, impedindo-o de movimentar a informação da forma adequada.
Referenciar o outro é um ato de respeito, uma ação ética no que se refere à construção e transmissão do saber. Em adição, sentir-se reconhecido (mesmo que aqui tenha algo de vaidade) é saudável e estimulante.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Além do vegetarianismo

"Quanto mais buscava a mim, mais as necessidades de mudança interna e externa aumentavam. Antes mesmo de moderar meus gastos e modificar o meu estilo de vida, comecei a mudar meus hábitos alimentares. Os autores de livros sobre vegetarianismo que lera haviam examinado a fundo a questão da alimentação à base de carne, criticando seus aspectos religiosos, científicos, práticos e médicos. Sob o ponto de vista ético, concluíram que a superioridade do homem sobre os animais inferiores não significava que deveria matá-los, mas antes protegê-los, justamente por serem inferiores. Deveria existir cooperação entre as espécies, exatamente como ocorre entre os humanos."
Autobiografia - minha vida e minhas experiências com a verdade, Mohandas K. Gandhi

"Quando cozinhar, não olhe as coisas comuns com um olhar ordinário, com sentimentos e pensamentos ordinários. Com esta folha de legume que você tem em suas mãos construa uma esplêndida morada de Buda e faça com que um ínfimo grão de areia proclame a lei. Dito de outra maneira, se você prepara um pobre caldo de ervas selvagens, que ele não lhe inspire nenhum sentimento de desgosto ou de desprezo, e se você elabora uma rica sopa cremosa, que seu coração não se encha de alegria. Onde não há apegos, como haveria hostilidade? Assim, quando lidar com uma matéria grosseira, não a trate sem consideração, seja tão diligente e tão atento a ela como se estivesse em presença de um objeto precioso. É importante que seu espírito não mude segundo a qualidade do objeto. Se seu espírito depende das coisas, é como se você mudasse de atitude e de linguagem de acordo com a qualidade da pessoa que você encontra. Um tal comportamento não é o de um homem que pratica o caminho."
Tenzô Kyokun ("Instruções ao Cozinheiro Zen"), Mestre Dôgen

"Numa outra vez que passou pela Marca [...] encontrou um homem que levava para a feira dois cordeirinhos amarrados e presos ao seu ombro. Ouvindo os cordeirinhos balirem, São Francisco se comoveu, aproximou-se e pôs as mãos neles, demonstrando-lhes compaixão como uma mãe que chorasse por seu filho. E disse ao homem: "Por que estás maltratando desse jeito os meus irmãozinhos, amarrados e pendurados?" O homem respondeu: "Vou levá-los para vender na feira, porque preciso do dinheiro". E o santo: "E o que vai acontecer com eles depois?" "Quem comprar vai matá-los e comer". "De jeito nenhum, disse o santo, isso não vai acontecer. Leva como pagamento a minha capa e me dá os cordeiros" [...]. O santo, quando recebeu os cordeirinhos, ficou pensando o que fazer com eles [...] e devolveu-os ao mesmo homem para cuidar deles, mandando-lhe que nunca os vendesse nem lhes fizesse mal algum, mas que os conservasse, alimentasse e cuidasse deles."
Vida de São Francisco de Assis, Tomás de Celano

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ser. Estar.

Deletar é uma palavra nova, inventada, assim como blogar e tuitar. São anglicismos, neologismos ou qualquer outro ismo. Na verdade, essas definições pouco importam no contexto desse texto. Porém, gostaria, brevemente, de escrever um pouco sobre outro termo criado recentemente, e desprezado por grande parte da população – o politicamente correto. Pessoalmente, não simpatizo com essa expressão e considero inútil a criação desse termo, uma vez que nossos dicionários já contêm sinônimos suficientes. Respeito, tolerância e educação poderiam ser alguns deles.
Desde muito novo, sempre fui extremamente observador ao que acontece ao meu redor. Talvez esse seja um dos atributos (não direi virtude) que tenha me impulsionado à docência. Um texto, um filme, uma reportagem ou uma conversa assumem novas perspectivas quando analisados com calma e coerência – essas sim, virtudes conquistadas ao longo do tempo e após muitas cabeçadas.
Por trabalhar em uma grande universidade, convivo diariamente com centenas de indivíduos bastante distintos entre si – alunos, professores e funcionários. Seria uma grande mentira dizer que conheço todos pelo nome e que sei um pouco da vida de cada um. Muito pelo contrário, pouco ou nada sei. Pela grande diversidade ao meu redor, a atenção nas relações deve ser constante. E somam-se a esse cenário outras informações. São as dezenas de emails que recebo diariamente, mensagens trocadas nas redes sociais, além da leitura de sites e blogs. Afinal, tudo isso deve ser encarado com atenção, pois, apesar de invisível para mim, existe uma pessoa – homem ou mulher - que redigiu aquele email, aquela frase ou aquele texto.
Como encarar tudo isso? De que forma lidar com o conhecido e com o desconhecido? O volume de informação a ser processado é imenso, a possibilidade de um mal entendido é grande, mas algo deve prevalecer – o bom senso, a coerência, e acima de tudo, a tolerância. Isso não significa ser passivo e aceitar tudo o que nos é oferecido (ou vomitado, em alguns casos). Muitas vezes, surgem conflitos nas relações, o que é importante e necessário. Conflito não significa violência e muito menos guerra. O conflito pode ser o gancho para a aquisição de uma nova habilidade – entender o outro, ponderar e analisar o que de melhor pode ser feito naquele momento.
Cheguei onde queria. Venho observando que cada um diz o que bem entende, na hora e no momento que quiser. Isso é falado e escrito – é a conversa no corredor, no elevador, e também chega por email, twitter, facebook, blogs e afins.
Hoje, mede-se o outro pelo que nós somos. Cada pessoa acha que é o modelo a ser seguido. Esquecemos que somos diversos. É aí que vemos o descendente de europeu “matando” nordestinos nas redes sociais, o negro ridicularizando um judeu, a gordinha ofendendo o gay ou, então, o contrário para todos esses casos – aqui não existe o melhor e o pior, o certo e o errado. Devemos entender que não existe esse modelo. Devemos nos respeitar. E respeitar significa entender. Muitas vezes, como colocado acima, o conflito é gerado, e isso nada mais é do que a alavanca para o entendimento. Porém, esse conflito não deveria, em hipótese alguma, gerar ofensa.
Sinceramente, temo pelo desgaste das relações entre os homens. Temo que o poder e a ganância sobrepujem a igualdade, e temo que a soberba adquira mais brilho que a humildade.
Porém, ao mesmo tempo, percebo, por meio de conversas muitas vezes informais, que muitas pessoas, até então despreocupadas, estão voltando seus olhos para questões como a igualdade, o respeito e a tolerância.
Esse deveria ser o nosso Norte.

Em busca de um mundo melhor.