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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Carta para ninguém

Papel e caneta no lugar de um teclado e um emaranhado de fios. A fina arte da escrita de cartas. Perdida desde o surgimento da carta eletrônica, dos comentários no blog, do sms, torpedos e afins.
Mas não é só isso. Creio que o desaparecimento das cartas não seja apenas conseqüência da simples troca de um pedaço de papel por um punhado de teclas.
A questão é que temos medo. Sim, medo do outro, medo das coisas duradouras, das marcas e cicatrizes. Medo de nos ver no papel, ali, com a nossa letra, um espelho manuscrito de nós mesmos. Afinal, arial 12 é igual para todos, no máximo um itálico para os mais poéticos, um negrito para os que gritam ou um sublinhado para os que pedem atenção.
Porém, (nos) colocar no papel é outra estória. Garranchos, rasuras e tortuosidades não são bem-vindas em um mundo atualmente anônimo.
No lugar das rasuras íntimas somos obrigados a conviver com os erros eletrônicos, com os corretores ortográficos automáticos, com a (falta de) emoção robotizada. É a desumanização das emoções, a prevalência do descuido, o esquecimento da delicadeza. É a omissão da vírgula e do acento, metafóricos ou reais.
Frases mal escritas, rabiscos sem emoção largados num mar de lixo eletrônico. Cartas para ninguém, mensagens que não aguardam resposta. Nada mais justo, pois, afinal, poucos sabem qual foi a pergunta, nem mesmo quem as fez sabe. E culpa-se a pressa, a bebedeira e a suposta emoção do momento.
Na rapidez das emoções eletrônicas (?) alguns crêem que ninguém os lê. Quanto mais rápido, melhor. Escreve-se para uma platéia ausente. Quem escreve? Alguém. Apenas alguém sem nome, sem rosto, sem coragem.
Carta é bem durável. Carta é emoção e intenção. Carta tem nome e sobrenome.

23 comentários:

  1. Não acredito que os livros em papel irão acabar, mas as cartas fazem parte de um mundo que não existe mais, assim como o telex e tantas outras coisas. Mudam as ferramentas, mas será que mudam as pessoas?

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  2. Concordo. Hoje não se escrevem mais diários, não se mandam mais cartões de aniversário muito menos de natal. Tudo é feito pelas redes sociais. Tenho guardadas algumas agendas com anotações que não tem preço e que não se perderam em nenhuma formatação. Ainda tenho muitas receitas escritas à mão com anotaçãoes: menos sal... mais açúcar... deliciosa... coisas do tipo, escritas em coador de café até. No computador, apaga-se o que não deu certo e escreve-se o novo processo. Triste, mas é a relidade. E nós, podemos mudá-la?? Se depender de mim, farei minha parte.
    Um bj Bergamo.

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  3. Posso dizer que você conseguiu traduzir o meu sentimento quando abro o correio todos os dias da minha casa e nenhum carta me prende com meu nome escrito de caneta azul borrada pelos possiveis problemas no caminho do carteiro. Não recebo mais uma carta que leio deitada na cama, enquanto destruo o envelope curiosa para saber o que tem ali dentro. Ainda escrevo cartas, na maioria das vezes sem resposta e fico assim...abrindo diariamente meu correio em busca das marcas que o tempo vai custar a apagar, sem obter nenhum sucesso. E aquelas poucas que me foram endereçadas ficam guardadas em cima do ármario para que um dia possa relembrar que um dia houve uma intenção de ser eterno!

    Obrigada por compartilhar sua angustia.

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  4. Bergamo, adorei seu texto, realmente fantástico. Meus parabéns.
    Abraços, Vivian

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  5. essa sua essência toda entrou em mim.... e eu te entendi tão bem.

    Amei... e continuo toda rebelde, cheia de saudades de você!

    beijos

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  6. Embora pareça efêmero,tudo o que é escrito na Internet é para sempre, mesmo que seja deletado.

    E o que percebo muito interessante é que o tempo linear não existe na rede,posso me colocar agora em relação a uma postagem ou a um comentário que foi postado agora ou há anos atrás, mas para mim, é tudo agora (como se o tempo se dobrasse e desdobrasse...)

    Ah! Mesmo assim, escrevo cartas.

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  7. Dirlene, Letícia, Sarah, Joyce e Fernanda,
    Obrigado pelas palavras. Muito lindo o que escreveram, além de ser reconfortante saber que muitos pensam como nós.
    Um abraço,
    Bergamo

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  8. Sem falar na deliciosa expectativa da espera da chegada do carteiro, que muitas vezes passava reto e era esperado novamente no dia seguinte.

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  9. Obrigado Vivian e Henrique!!
    Abraços.

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  10. Bergamo, há três anos atras tive a honra de ser chamado para ser padrinho de Raphael, filho de um casal de amigos, junto com Astrid, outra querida amiga. Eu dei ele, no batizado, uma carta, escrita e desenhada, que espero ele responda no futuro. E sem saber disto, Astrid deu a ele uma caneta de ouro, para que no futuro ele pudesse se expressar.afinal, sempre haverá alguém que prefere café de coador ao expresso feito em máquina de ultima geração, não é?
    Forte abraço,

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  11. Nossa Bergamo...
    Vc colocou em palavras o que me vai no coração...
    Estamos nos tornando estereótipos de nós mms, pois começa que não damos valor e nem voz àquilo que nos vai nos corações, estandardizando pensamentos, ética e ações, em um mundo onde tudo é descartável.
    E onde cultura é algo para ser consumido com pressa e por moda.
    Talvez seja a fase da ignorancia cibernética, quem sabe...?
    Bjs!

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  12. Digo mais... teclados não marcam lagrimas assim como as cartas... tinta da caneta que se borra toda vez que vem a tona um sentimento.

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  13. Obrigado Wair, Clau e Carol. Comentários como esses que todos vocês estão fazendo são como cartas...cartas para alguém.
    Bj!

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  14. É... Talvez um backspace não deixa vestígios. Um traço sobre a palavra deixa tudo o que você pensou e quis dizer, à mostra. Papel e caneta não servem para os covardes!

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  15. Má, que saudade de ler o que você escreve....oh delícia!!!!

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  16. olá, adorei o que li, e tomo a liberdade de colar no meu blog, claro, dando-lhe os créditos. É que sou daquelas que adorava escrever cartas e achei magnifico esse post, que retrata muito bem o quão raro é usarmos a velha e boa carta pra nos expressarmos atualmente. Abçs e sucesso

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  17. Mauro, papel e caneta não servem para convardes e nem anônimos, não é mesmo?
    Abraços ;)

    Obrigado Erika ;)

    Markelly, obrigado pela visita. Mas vc não passou o endereço do seu blog.
    Abraços.

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  18. Um bom texto em um bom blog. Parabéns!

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  19. Olá Marcelo! Obrigado pela visita. Vi que escreve também, depois passarei lá pelo seu blog.
    Abraços

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  20. Gente, que coisa linda e triste! Eu tenho um blog de poemas porque eh o jeito mais facil de difundir minha poesia.
    Mas todos os meus poemas sao escritos antes, com papel e caneta. eh dificil se inspirar no computador! gosto de rasurar, mudar estrofes de lugar. No computador nao tenho como acompanhar esse processo criativo. No papel, fica tudo la: como eu comecei, o que eu alterei e o resultado final pode nao ser tao "limpo" quanto o postada, mas eh muito mais enriquecedor!
    Beijo,
    Nanda.

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  21. Ah, mas também é um carinho grande quando abrimos o correio eletrônico e encontramos mensagens de pessoas que amamos ou então conhecemos pessoas especiais e atenciosas como você que interagem com os seus leitores.
    Bem, sou suspeita, pois sou orientadora de informática educativa e acho que a internet só veio contribuir...

    Bj

    Celina

    P.S.: Como pode ver, continuo "viajando"...

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  22. Olá Celina! Sim, acredito na internet e acredito tb nas cartas eletrônicas. Afinal, estamos aqui!! Interagindo.
    Bj,
    Bergamo

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