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sábado, 12 de março de 2011

Inconformismo

Tive uma infância bem simples, porém nunca nos faltou nada e mesmo que houvesse dinheiro suficiente para qualquer pequeno luxo, meus pais jamais o gastaram dessa forma. Até a adolescência vivi com o absolutamente necessário – casa simples em um bairro de imigrantes, comida caseira bem feitinha e alguns pratos especiais comprados na rôtisserie da esquina aos domingos. Refrigerante aos finais de semana, restaurantes talvez uma vez ao ano ou com freqüência ainda menor. Festas? Raras. Carros, sempre os mais simples. Roupas compradas nas lojas do bairro. Viagens? Até São Vicente, no litoral de São Paulo.
Meus pais pouco estudaram – homens tinham que trabalhar desde cedo e a escola não era lugar para mulheres. Pais que não perpetuaram o mesmo erro, e com sacrifício, colocaram os filhos na escola particular do mesmo bairro onde morávamos. Lembro de colegas de sala que freqüentavam clubes, jogavam tênis, viajavam ao exterior e voltavam para casa em carros de luxo (pelo menos aos meus olhos). Nunca tive aventuras de férias para contar.
O que tínhamos então? Personagens familiares fortes, exemplos éticos de pequenos sacrifícios e abnegações em prol da família. Avós que largaram tudo em um país destruído e pais que herdaram uma compleição emocional por vezes excessivamente rígida.
O mundo gira e no meio de minha adolescência recebi a carta de alforria. Novos mundos, novos amigos, outros ambientes. Descobertas, frustrações e revoltas. Uma quase típica vida de adolescente. O encontro com iguais e a aproximação com o diferente moldando e manipulando a formação daquele que não era mais a criança do bairro. Tive a sorte e o privilégio de ter conhecido professores absolutamente maravilhosos no colegial – inteligentes, perspicazes, especiais. De alguma forma inexplicável ficou entranhada em mim a importância que um professor pode ter na formação ética de seus alunos.
Do que falo aqui? Família e escola, dois grandes alicerces na formação de nosso caráter como cidadão ético e consciente. Antes que levantem a importância do dinheiro no meio disso tudo, gostaria de reforçar que não nasci em berço de ouro e o colegial que citei acima era gratuito. Obviamente, tive a oportunidade de me dedicar aos estudos com afinco, situação oposta a qual, lamentavelmente, muitas crianças brasileiras vivem.
Afinal, pra que serviu todo esse preâmbulo autobiográfico? Apenas para dizer que fico transtornado quando vejo que o “errado”, o “sujo” e o “ilegal” são tomados como exemplo. Vivemos num país onde o esperto é o bom, o desejado. Quem trapaceia, mente, compra carta de habilitação, diploma e passa a perna no outro é o espertão (ou a espertona) e serve de exemplo para os colegas, irmãos e filhos.
É doloroso viver um momento de individualismo tão grande e imensa falta de respeito com o outro.
Se todos querem lucrar alguém vai pagar por isso. Pensemos nisso.

18 comentários:

  1. O moderno e não careta hoje é viver na moda.
    A moda de ser aquilo só que aparenta, não o que realmente é!
    As pessoas teem vergonha de não "ter", não de não "ser"! Misturam o verbo "be", como se fosse em português, sendo, ser e estar a mesma coisa...
    Status, é tudo, não importa como, a pessoa tem que estar na fita, mesmo que seja mal!

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  2. O carater, infelizmente, está na grife do terno, no modelo do carro, no nome do vinho da moda (apesar do gosto ser da cerveja vagabunda ou da caipirinha, é chic falar de vinho!). Dignidade e carater não podem ser adquiridas com dinheiro (especialmente se for de maracutaia, de espertagem, de trambique, de sonegação) elas vem do berço, independente da madeira com que ele é feito, aglomerado ou cedro!

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  3. Revi a minha família, a escola da vida e este pequeno país em que moro neste teu texto. Nós somos fruto de tudo que nos rodeia, esponjas que assimilam tanto o bom como o mau. É essencial a boa moral nas pessoas que nos educam e que são nossos modelos desde que nascemos.

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  4. Ainda bem que ainda temos a possibilidade de encontrar pessoas assim pois Be não é nada simples. é uma pessoa ao pouco que tive o prazer de conhecer de um gosto incorrigível, de uma elegância incomparável, e que com certeza pode ser exemplo para muitas coisas, não todas, pois ninguém é perfeito, mas para vários itens ele pode ser exemplo e deve ser, uma pessoa incrível e se não contasse uma partinha biográfica dele, jamais diria que sua altivez, elegância e presença não foram criadas ou melhor nascidas nos berços mais abastados, com certeza sua criação (família) fez parte do que ele é hoje, uma pessoa, um professor único...

    Be parabens por mais este texto... e as fotos, cada vez mais lindas...

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  5. Faço minhas as suas palavras.
    Linkei o seu texto o facebook. Muita gente precisa ler e refletir.
    Parabéns por mais esse belíssimo texto

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  6. Marcelo,
    seu texto como sempre é cirúrgico e pontual...sua verdade transborda em suas palavras e isso é fantástico.
    Hoje durante o almoço conversava com a Luana exatamente sobre isso...que no nosso país infelizmente a falta de critério vem desde a colonização e como é difícil mudar tudo isso...as coisas mudam como se muda de roupa e tudo se perde...
    Você é fantástico no que faz e como pessoa...minha admiração só cresce...e por muita coincidência estava lendo um texto para poder preparar uma materia para um lugar e advinha de quem era o texto...seu!!!

    Beijos querido

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  7. Poxa Bergamo.
    Até parece que vc pinçou memòrias e pensamentos de dentro de minha pròpria mente...
    Mas que diabo tinha naquele meu chà?!!
    Hihihi!
    Bjs!

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  8. Leia: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-25/despedida/a-liberdade-de-ver-os-outros?utm_source=revistapiaui&utm_campaign=share&utm_medium=facebook&utm_content=http%3A%2F%2Frevistapiaui.estadao.com.br%2Fedicao-25%2Fdespedida%2Fa-liberdade-de-ver-os-outros

    Vale a pena.
    beijos

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  9. Assino embaixo. Um exemplo é o que eu tuitei outro dia. As pessas jogam lixo na estrada e custa uma fortuna limpar. Aí o valor é repassado pro pedágio. Estamos todos no mesmo barco não é?

    Procuro, na minha vida, ser e dar o melhor exemplo. Como meu pai me ensinou. Mas sou ridicularizada quando digo que não paguei, mas estudei o livrinho e fiz a prova no Detran para renovar a carteira de motorista... que registro minha funcionária pleo valor 'cheio' do salário dela... e por aí vai. Posso ser 'boba', não sou perfeita, mas procuro, sempre, ser ética e honesta.

    Bjs!

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  10. A sua história, assim como a minha, encontra similares em nossa geração. De uma época em que respeito não era qualidade, e sim, condição. Onde falar baixo e não ostentar eram sinais de elegância, tempos em que o bem comum era tão importante quanto o bem próprio, particular. Não sou pessimista, mas creio que este tempo passou. Hoje as pessoas falam altíssimo em qualquer lugar, desrespeitam qualquer convenção em prol de uma necessidade pessoal nem sempre tão básica ou urgente, e deturpam o conceito original do direito. Oxalá eu esteja errado, e as gerações futuras percebam isto...

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  11. Sem palavras para esse texto. Como sempre né Sr. Bergamo...rs.
    A minha indignação ainda é ver que o "obrigatório" na estruturação do ser humano (familia e escola) acaba se tornando quase que um folclore nos dias de hoje. Parabéns pelo texto. Sucesso sempre.
    Beijo grande, Andrea Zoli

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  12. Infelizmente é isso mesmo. Somos o Brasil, o país da piada pronta.

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  13. Delicia de texto!!
    Leva-nos a pensar em como anda a nossa educação. Que um diploma nem sempre dá ao individuo a categoria de mestre ou doutor.
    É triste quando me deparo com aquele que joga a pedra no telhado do vizinho e não percebe que o seu é de vidro. A humanidade tem que parar para pensar, deixar as “categorias” de lado e aprender que todos vão para o mesmo lugar no final e que a vivência é o livre arbítrio – aqui se faz aqui se paga – melhor, será que já não estamos pagando?
    Parabéns pela reflexão.. Você faz a diferença, eis aqui mais uma fã... rs

    Beijos
    Evelyn Gonçalves

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  14. Disse tudo!! fazer o que isso é Brasil!
    Parabens Bergamo! ótimo Texto!!!

    Henrique Calheiros

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  15. Vivemos em gerações diferentes (eu e vc)... Talvez o esilo de vida, o sabor da infância, o conceito da família... Enfim, toda essa nostálgica sensação não possa ser compartilhada, pois foi (re)concebida de maneira mais enxuta ou diferente... Mas algo permanece com a mesma essência... a confusão ser/estar... Claro que o dinheiro ajuda na felicidade... Porém, onde está a felicidade quando não conseguimos olhar pra dentro??? Quando não nos reconhecemos, vemos nossas raízes e nos assumimos como somos, com defeitos e qualidades???
    A ética foi deturpada inclusive dentro da família e da escola, onde o filho anti-ético é defendido pelo pai protetor... Onde furar fila e tirar proveito faz de você o máximo...
    É triste... Mas cabe a nós, seres conscientes não darmos lição de moral... mas sim o exemplo do correto.

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  16. Ma, seu texto prova, mais muma vez, que berço não é nada. O que conta é a dignidade, a integridade e o respeito. E isso tudo, na minha opinião, nasce no seio da família. Pobre ou rica, não importa. O que importa é o amor dos pais e o cuidado na educação dos filhos, para que cresçam saudáveis e no futuro sejam cidadãos íntegros. Sem esta condição não existe alicerce algum. Não existe a condição do uso correto da "carta de alforria" que vc teve e a usou com tanta sabedoria.
    Parabéns pelo texto genial e um parabéns especial para seus pais.

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  17. Olá Bergamo,
    Nós não nos conhecemos nem somos amigos nas redes sociais, mas a palavra 'Inconformismo' saltou aos meus olhos no facebook. Como todos nós somos inconformados com alguma (ou muitas) coisas, entrei no teu blog para saber qual era este teu inconformismo. Vi que é o meu também, e de tantos outros que aqui postaram seus comentários. É também a minha história de vida, assim como de todos os outros inconformados que deixaram suas histórias aqui.
    Isso me faz lembrar de uma frase de Martin Luther King "O que me preocupa não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons". O teu inconformismo quebra justamente o silêncio dos bons, que estão cansados do barulho destes que querem oficializar no país a lei de Gerson, do levar vantagem em tudo. Ao invés de nos conformarmos dentro do nosso incoformismo, seria bom começarmos, como você, a fazer o barulho dos bons!
    Grande abraço,
    Sonia Denicol

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  18. É, meu caro... Ser honesto e educado hoje é ser 'diferente'. Falar bom dia pra pessoa a quem sentou ao lado no banco do ônibus, é sinal de "alarme", afinal, pode ser um "assalto"...
    Pior ainda é contemplar o simples (e fazê-lo grande desde a criação) e tornar, aos olhos de muitos, força da "massa mecanicista das tendências passageiras"...
    Ah, se soubessem quão pobre e fora de moda é fechar os olhos p as "pequenas" maravilhas que realmente fazem o quebra cabeças que nos constrói... Chega de hipocrisia, já é muito tarde pra isso...
    Concordo plenamente com vc: pensemos nisso! Pensemos.
    Um grande abraço, e minha silenciosa admiração.

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