Espaço dedicado a pensamentos, poesias & devaneios. Sabor, comida, viagens, fotos, livros e o que mais der na telha (ou no forno).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tríptico Doloroso

Acontece algumas vezes
De tempos em tempos
Ele tira a entidade de dentro de seu corpo
Não! Seria mais correto dizer que a entidade brota,
escorre através de todos os seus poros,
como o suor das noites de verão
Assim que a entidade está livre
Ele a coloca a sua frente
Com o ínfimo domínio que tem sobre ela,
milimetricamente, a posiciona a sua frente,
joelho contra joelho
A olha atentamente, agudamente
Mesmo sem tocá-la sente todos os seus ângulos e curvas
É assustadora
E corporifica tudo aquilo que não quer ver
Sem nem ao menos trocarem uma sílaba sequer,
a entidade sabe tudo sobre ele
Isso o descontenta, mas não existe qualquer possibilidade de fuga
E ele sabe que ela permanecerá algum tempo com ele
dias, semanas, meses talvez

Sentado
Ele observa o pingente de cristal multifacetado
Refletindo centenas de imagens
Cada imagem, uma lembrança
Uma memória, um sonho
Um desejo
Uma criação de sua mente
Um sentimento de seu coração
Vontades
O pingente apenas personifica o que há, o que é,
o que foi
Já não sabe a diferença entre o real e o imaginário
Mas lamenta que o passado não retornará
Lamenta que o presente é uma mentira
Lamenta que o futuro é frágil, duvidoso, delgado
Não assimila qualquer imagem
Não toca nenhum corpo ou objeto
Apenas observa

Todos os dias
Ele observa a mesma cena
Um deles permanece firme,
no aguardo de um resultado impossível
O outro permanece firme também,
com a certeza de um fracasso verdadeiro
No outro dia a mesma cena.
No outro...no outro...no outro...
Resta pouco para um. Essa é uma verdade.
O que resta para o outro? Apenas a dúvida.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Doce de vó

...doce, aveludado, acolhedor e generoso...


Também conhecido como Manezinho Araújo no Nordeste ou Chico Balanceado no Paraná. Nomes confirmados pelas consultoras para assuntos aleatórios @marcelamarlima e @kristhianne.
Nordestino ou sulista, hoje é dia do Doce de Vó. Muito açúcar, leite condensado, caramelo e banana.

Creme
3 gemas de ovos
1 col. de chá de essência de baunilha
1 lata de leite condensado
2 col. de sopa de amido de milho
600 ml de leite integral
Modo de preparo: bata tudo (exceto a essência) no liquidificador e leve ao fogo mexendo sempre até que o creme fique espesso. Ferva por mais 5 minutos assim que levantar fervura. Retire do fogo e aromatize com a essência.

Doce de banana
300 g de acúcar refinado
75 ml de água
2 ramas de canela
2 un. de anis estrelado
3 un. de cravo
6 bananas nanicas maduras em rodelas
1 col. de sopa de conhaque (opcional)
Modo de preparo: faça um caramelo com a água e o açúcar, acrescente as bananas, as especiarias e mais 100 ml de água. Cozinhe as bananas no caramelo até que fiquem bem macias. Ao final, acrescente o conhaque, caso tenha optado por usá-lo.

Merengue
300 g de açúcar refinado
150 g de claras de ovos
Raspas de um limão
Modo de preparo: leve todos os ingredientes ao banho maria até que o açúcar esteja completamente dissolvido. Bata em batedeira até levantar picos firmes.


Montagem

Coloque o doce de banana no fundo de um recipiente e disponha o creme sobre ele. Finalize com o merengue e leve ao forno até que doure ou então faça como uma avó moderna e queime com o auxílio de um maçarico.
Sirva gelado ;o)

...boas lembranças...

sábado, 20 de novembro de 2010

Por favor, não me chamem de mestre!

Não sou mestre; não dirijo, não ordeno; e que me perdoem os pedagogos de plantão, não crio, não nutro e muito menos educo.
Há tempos tenho vontade de escrever, humildemente, sobre o que entendo por ensino, mais especificamente sobre o relacionamento aluno-professor. Mas, nesse mundo virtual de covardia anônima somos tão mal interpretados que sempre evitei tocar nesse assunto. Porém, meus neurônios coçam sem parar. Quem sabe não consigo trazer alguma luz? Ao menos, que seja um fiapo.
O ensino, amplamente discutido em todos os cenários da sociedade, encontra-se submerso sob uma montanha de lendas e equívocos. O que querem os pais, os alunos, as instituições de ensino e os professores? Com certeza ninguém fala a mesma língua e pouco se entendem. Por fim, quase todos terminam insatisfeitos.
Afinal, o que buscam os sem luz (alumni) e o que os iluminados têm a dizer?
O aluno procura uma profissão, um caminho, e acima de tudo, busca conhecimento. Resumindo, o aluno quer aprender e ainda, por mais que diga não, quer um professor que saiba tudo e que fique lá na frente ensinando, dirigindo, conduzindo. A platéia chega a dormir no meio da aula, mas pelo menos não é exposta ao perigo. Os pais querem um professor que saiba tudo, com bom currículo e que fique lá na frente dos alunos falando, falando e falando até que os filhos durmam e babem sobre a carteira. Não importa. E os professores querem apenas ensinar. Prontinho, a missão foi cumprida. Pais e alunos procuraram mestres iluminados e os encontraram nas escolas. Alguém tem coragem de dizer que isso tudo está errado?
Qualquer alteração nesse padrão pode gerar uma crise: o professor é doidão, o professor não manja nada, o professor não tem segurança. Afinal, um quadrado precisa ter lados iguais e ângulos retos. Como um mantra: quadrado, igual, reto, quadrado, igual, reto...
Não podemos ser redondos, ovalados, diferentes, disformes? Ou então, espinhudos e cheios de ângulos?
Querer o diferente e fugir de um padrão repetitivo demanda busca, trabalho e significa aceitar imperfeições. Muitos se dizem dispostos a encarar um novo padrão (ou a ausência dele), mas será que estamos realmente prontos para aceitar o desafio?
O aluno não é um ser sem luz, apenas precisa ajustar o foco. E ele só encontra o foco se tiver persistência e vontade. Um adendo: vontade própria. Não é função minha arrumar o foco da lente, mas posso mostrar algumas técnicas. Trocaria a palavra mestre por provocador; mesmo sem saber tudo, o provocador é aquele que estimula e incita. Em bom português: é aquele que coloca lenha na fogueira.
Ambos precisam estar abertos para aceitar as falhas e, acima de tudo, assumir que pouco sabem. É piegas. Eu sei. Mas esse trabalho só dará certo quando realizado em conjunto.

Um lembrete:
O mundo mudou, e rápido, diga-se de passagem. Já tivemos sobrenomes, depois apenas nomes. Fomos e somos números e agora nos tornamos @s. Porém, acima de tudo, somos seres pensantes. Os ponteiros do relógio correm. Agora pensamos diferente, agimos diferente e nos relacionamos de outra forma, e as @s estão aí indicando que as novas realidades tecnológicas não podem ser ignoradas por nenhuma das partes – alunos, pais, instituições e provocadores.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mesa Tendências Sustentabilidade. Parte IV - A Carta de São Paulo.


Já no primeiro dia do evento, o mediador (ou provocador) Georges Schnyder (revista Prazeres da Mesa) apresentou um documento – A Carta de São Paulo, Gastronomia e Sustentabilidade - escrito por um grupo de pessoas envolvidas com a gastronomia. Esse documento tem como objetivo atestar a preocupação e o compromisso da sociedade com as questões ambientais e sociais sob a ótica da sustentabilidade. Todos foram convidados a endossar essa carta aumentando assim o número de pessoas comprometidas com tais questões. Obviamente, esse documento e suas assinaturas só terão valia a partir do momento que seus princípios forem internalizados e todos os envolvidos estiverem cientes de que mudanças demandam estudo, conhecimento e até mesmo alguns “sacrifícios”. Seguem os princípios expostos na carta (clique aqui para acessar a carta na íntegra):

1. Conhecer o alimento que adquirimos, processamos e comemos.
2. Conservar os meios e as condições que dão origem ao alimento.
3. Preservar, valorizar e promover as qualidades naturais do alimento, assim como seu uso saudável.
4. Utilizar todo o alimento que adquirimos.
5. Remunerar adequadamente os produtores do alimento, inclusive pelos serviços ambientais providenciados para a sociedade.
6. Aplicar conhecimento e tecnologia inovadora para valorizar a diversidade e qualidade do ingrediente, assim como de seus usos.
7. Honrar e respeitar diariamente o ato de comer e de preparar a comida.

Os princípios expostos resgatam e endossam as premissas do Slow Foodo limpo, o bom e o justo - e nos fazem recordar do manifesto de Michael Pollan e suas regras da comida – uma delas, “Não coma nada que sua avó não reconhecesse como comida”.
E, sem dúvida alguma, a Carta de São Paulo corrobora o que já foi exposto na Carta da Terra, um documento universal lançado oficialmente em junho de 2000, em Haia, Holanda. Para quem não conhece, a Carta da Terra é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, no século 21, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica; e pode ser lida aqui em sua íntegra.

Como todo manifesto ou compromisso, entendo que os princípios expostos nesses documentos devam ser discutidos e revisados continuamente em busca de melhorias e alternativas de aplicação – o trabalho é árduo, e ainda pouco se faz. Não podemos esquecer que pertencemos a uma cadeia circular e qualquer ação – sustentável ou não – entra, em algum passo, em um fluxo contínuo dinâmico. A responsabilidade é grande, e é de todos nós. Envolve escolhas e até mesmo renúncias.

Da Carta da Terra:
“A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Entretanto, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade tem um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.”

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mesa Tendências Sustentabilidade. Parte III.


Dia 3
28 de outubro de 2010

Beto Pimentel
Chef proprietário do Paraíso Tropical (do qual já falei aqui) provocou a platéia: “mentirosos! bando de mentirosos! Vocês dizem que fazem isso, aquilo; que praticam a sustentabilidade, mas não fazem nada disso!” O que diferencia Beto da maioria dos chefs é que ele realmente entende do que está falando. Sua experiência como agrônomo e pesquisador permite que ele avalie os impactos da produção dos alimentos, junto ao meio ambiente e a nós mesmos.

Mara Salles
Oportunamente, a chef esclarece que sustentabilidade vai além do assunto meio ambiente e diz que é uma questão social. E exemplifica muito bem esse assunto trazendo ao público o curta metragem Ilha das Flores. A chef Mara, como todos os outros, discursa sobre a defesa dos produtos nacionais, uma vez que, teoricamente, deveriam causar menos impactos ambientais (redução no transporte e no gasto de energia). Interessante também a forma como a chef distingue a cozinha sustentável da cozinha de grandes impactos feita por muitos jovens chefs que buscam o glamour no cenário gastronômico atual.

Bernard Twardy
O chef alemão mostrou o seu trabalho em busca de um manejo sustentável do caranguejo em Fortaleza, minimizando o desperdício e os impactos negativos da captura e do transporte do animal, e garantindo ainda o não envolvimento de trabalho infantil, além de promover a inclusão social.

David Hertz
O diretor-presidente da Associação Incubadora Social Gastromotiva, chef David Hertz, nos contou sobre a construção do projeto e trouxe alguns integrantes da equipe –jovens que saíram da situação de miséria e agora têm seu próprio negócio na área de alimentação. Sim, como Mara Salles disse, sustentabilidade é uma questão social.

Teresa Corção
Mais uma chef que luta pelo uso de ingredientes nativos e quase esquecidos. Fez um bonito trabalho de pesquisa sobre a farinha de mandioca – a farinha d’água produzida em Bragança, no Pará, pelo seu Bené – o “professor da farinha”. A chef acerta ao dizer que “É preciso criar um elo verdadeiro com o produtor, conhecê-lo, entendê-lo”. Neide Rigo traz mais informações sobre a farinha do seu Bené.

Hervé This
Sustentabilidade: nas palavras do cientista Hervé This, quando “alguém fala uma palavra com mais de três sílabas, com certeza, essa pessoa quer lhe vender alguma coisa”. Muitas vezes conclamado o papa da gastronomia molecular, Hervé surgiu com essa provocação: “Molecular cooking is over. Let’s move to note by note cooking”. O que seria essa nova gastronomia (ou seria uma nova ciência)? O entendimento físico-químico de todos os componentes que constroem o alimento e a posterior recriação/transformação desse alimento. Hervé parte agora para a dissecação do alimento, o desmembramento e entendimento da função de cada uma de suas moléculas. Diz ainda que cozinhamos como na Idade Média, com utensílios e técnicas medievais. Da palestra, até mais do que das experimentações científicas, guardo o seguinte conselho: “o conhecimento deve ser distribuído gratuitamente”.

Massimo Bottura
O famoso chef, assim como outros palestrantes, prepara pratos também inspirados pela natureza, mesmo que esteja mimetizando a água de um mar poluído – seria esse um prato denúncia?
Como conselho, deixa que “nunca devemos nos esquecer de nossa essência”.

Alex Atala
Exímio caçador (leia matéria na revista Trip) o chef Atala fez um discurso sobre como nos alimentamos, a real necessidade do consumo de carne e a nossa relação com o meio ambiente. Nesse sentido, escolheu para o evento sobre sustentabilidade um menu vegetariano valorizando o kokumi – mais uma nova palavra no cenário da gastronomia. Nas palavras do chef, uma palavra difícil de ser explicada, mas que se refere ao peso, ao corpo do sabor, do prato. Pesquisando pela internet achei dados científicos que demonstram a existência de moléculas (insípidas) que se ligam a receptores sensíveis ao cálcio, exacerbando o doce, o salgado e o umami do alimento, características conhecidas como sabor kokumi (resumo do artigo aqui).

Carlo Petrini
Fundador do movimento Slow Food Carlo Petrini defendeu, em um discurso exaltado, o homem do campo e todo o conhecimento detido por essas pessoas simples e injustiçadas no mundo moderno industrializado. Petrini é sempre certeiro ao dizer que devemos voltar nosso olhar para o campo e termos em mente o conceito do “bom, limpo e justo”.

O livro Slow Food: princípios da nova gastronomia (Ed. Senac), de Petrini, também é leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema.
Em adição, aqui no blog já escrevi dois textos sobre essa temática:
http://blogdobergamo.blogspot.com/2010/07/o-que-ha-por-tras-de-um-prato-de-comida.html

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Mesa Tendências Sustentabilidade. Parte II.


Dia 2
27 de outubro de 2010

Juarez Campos
O chef, formado em Farmácia e Bioquímica e docente por 25 anos, diz que “sabe explicar” - e ninguém tem dúvidas sobre isso. Em uma aula emocionada mostrou o trabalho das paneleiras de Goiabeiras, ES, e das desfiadeiras de siri, valorizando o trabalho artesanal dessas mulheres. Fez uma crítica justa à ANVISA, dizendo que falta racionalidade na regulamentação de nossos produtos e que as normatizações deveriam ser feitas dentro de nossa realidade.

Almir da Fonseca
Professor do CIA, o chef mostra o uso completo do ingrediente: a pele do tomate tostada juntamente com alecrim e processada vira um tempero; as “pétalas” se transformam em picles; o centro mais gelatinoso do tomate vira geléia e as sementes secas ao forno e tostadas com cominho e coentro se transformam em uma “especiaria”. Ainda aproveita a aula para fazer uma crítica ao novo padrão de chefs - o chef-celebridade que passa 90% do tempo no salão.

Rodrigo Oliveira e Julien Mercier
Mostraram o casamento entre a tecnologia e o uso de ingredientes nativos, onde sous vide, desidratadores e frituras em temperaturas moderadas convivem tranquilamente com o arroz vermelho, o coco, a pimenta Cambuci e a farinha d’água. Fica aqui uma pergunta: é possível ser sustentável com o uso da tecnologia? Sem esquecer que no outro lado da moeda temos a chef “tecnofóbica” Roberta Sudbrack em busca de “uma memória que nos sustente”.

Bel Coelho
Flertando fortemente com a cozinha tecnoemocional e com fortes ecos da cozinha do El Celler de Can Roca, a chef nos traz o prato Zona da Mata – uma sobremesa composta por mais de 12 itens – gelatinas, espumas, granizados, cremes, farofas, caramelos, flores, etc, etc. A idéia central, assim como vimos no trabalho desenvolvido por Rodrigo Oliveira, reside no uso de ingredientes nativos - frutas, no caso de Bel Coelho - submetidos à “tecnologia de vanguarda”.

César Santos
Um grande defensor de nossos ingredientes, técnicas e tradição gastronômica, o chef preparou a sobremesa Trio Nordestino, que leva rapadura, queijo de coalho, doce de leite, manteiga de garrafa, coco e banana. Sendo que o queijo, o doce de leite e a manteiga de garrafa formam essa tríade Nordestina.

Atul Kochhar
Além do ambiente da cozinha, e levantando a bandeira da sustentabilidade, o chef diz que devemos viver de forma consciente “do berço ao caixão”, e que o ingrediente deve ser utilizado "do focinho até o rabo" (metaforicamente, entendo que não necessariamente isso se refira apenas aos animais). O chef faz uma cozinha inspirada e perfumada, imprimindo o sabor das especiarias indianas à cozinha da Inglaterra.

André Saburó e Raphael Despirite
Os jovens chefs apresentaram um belo trabalho de pesquisa e já começaram dizendo que é importante descrever um prato, compreender sua origem, sua história e saber por quais processos o ingrediente passou até chegar ao resultado final. A pesquisa dos chefs é séria, inclusive levando-os a entrar em contato com o grande botânico Gil Felippe. Saburó e Despirite encontraram usos inovadores para dois peixes da costa brasileira: o fígado do beijupirá se transformando em foie gras, e o agulhão de vela rendendo um excelente embutido curado que tivemos o prazer de degustar.

Shane Osborn
Seguindo ao pé da letra os ensinamentos do grande Carlo Petrini, o chef mantém uma horta urbana em seu restaurante, inspirando seus clientes. Parece que o chef se encantou com o chuchu brasileiro e preparou picles com esse ingrediente tão desprezado em nossa cultura.

Yoshihiro Narisawa
A ordem aqui é: coexistência com a natureza. Os pratos mais lindos e encantadores que já vi em minha vida, apenas se equiparando visualmente às sobremesas de Albert Adrià em seu livro Natura. Narisawa mimetiza as forças da natureza – a água, o fogo e o carvão, a terra, a floresta – e transforma tudo isso em alimento. Uma sopa que lembra uma nascente de água, caldo de terra, água aromatizada com lascas de madeira (uma espécie de dashi), biscoito de serragem de castanheira, carvão de alho poró, um pão que fermenta na mesa do cliente e é assado lá mesmo dentro de uma pedra aquecida. É mais que uma cozinha natural, é a sensação e o poder da natureza levados à mesa. Tivemos o privilégio de provar o carvão de alho poró, o biscoito de serragem e a água aromatizada. Sem exagero algum, surpreendentes – a água perfumadíssima, enquanto que o carvão lembrou-me café com pitadas de sal e leve toque de acidez, altamente persistente no paladar. Leia também a ótima reportagem de Luiz Américo Camargo sobre o chef Narisawa.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Mesa Tendências Sustentabilidade. Parte I.



Onde está a sustentabilidade? Na cozinha!!!

Semana passada aconteceu em São Paulo o mais importante evento gastronômico brasileiro – a 4ª edição do Congresso Internacional de Gastronomia Mesa Tendências, levantando a seguinte bandeira: Sustentabilidade – O que a gastronomia pode fazer pelo planeta?

Foram três dias de bastante estudo, reflexões e anotações. Muitas palestras, reencontro com amigos e novos contatos. Tentarei colocar em alguns posts as impressões sobre o que chamou minha atenção nesses três dias.

Dia 1
26 de outubro de 2010

Não pode estar presente, mas contamos com um vídeo do chef nos contando um pouco sobre a realidade da gastronomia peruana. O chef, mundialmente conhecido por batalhar pela busca de uma autêntica cozinha peruana, levantou alguns pontos de reflexão bastante importantes. Para ele, um dos papéis de um cozinheiro é lutar pelo reencontro com as suas raízes. Além disso, deixa claro que a cozinha é um instrumento libertador que leva à independência emocional e pessoal.

Heinz Beck
Interessante ver a preocupação do chef com a funcionalidade do alimento. Antes, um campo restrito à Nutrição, os alimentos funcionais estão presentes no cardápio do La pergola (alimentos funcionais são úteis na prevenção ou controle de doenças). Flertando com a desconstrução e releituras, prepara um espaguete com vôngole cozido em água de tomate. Em referência ao seu livro L'ingrediente segreto, o chef responde uma pergunta da platéia: “O ingrediente secreto é aquele que melhora a nossa vida e não necessariamente o nosso prato”.

Ana Luiza Trajano
A chef comenta bastante sobre o movimento Slow Food e a Arca do Gosto, citando uma série de itens aos quais devemos estar atentos no que se refere ao manejo sustentável de nossos produtos nativos. Resumindo, a palavra da chef é: identificação, valorização e preservação de nossas riquezas.

José Barattino
Para o chef, os três pilares da cadeira de produção sustentável devem compreender o produtor, o produto e o consumidor. E, em cada um desses nichos, ações devem ser tomadas para garantirmos a continuidade desse processo, tais como: valorização de pequenos produtores familiares, parcerias para abertura de mercado, promoção de produtos orgânicos e biodinâmicos, a melhoria da qualidade dos produtos, defesa do patrimônio cultural através dos ingredientes, pesquisa de plantas não convencionais e, por fim, tornar os produtos acessíveis, além da criação de uma cultura gastronômica sustentável.

Tsuyoshi Murakami
Com o chef aprendi a palavra japonesa Mottainai, uma expressão que denota uma atitude de não desperdiçar nenhum tipo de produto, recurso natural ou mesmo nossas vidas. Não há uma tradução exata para outras línguas: “Mottai” significa a essência ou real valor de alguma coisa e “nai” significa “não” (fonte: http://www.mottainai.org.br/index.php). Portanto, o que estamos falando aqui? Sustentabilidade e seus pilares: Reutilizar, reduzir, reciclar e respeitar.

Roberta Sudbrack
“É mais fácil conseguir trufas de Alba do que fubá do interior”
A chef, com o seu eterno medo das máquinas e da desumanização na cozinha, nos mostrou a sua viagem a Itabirito, MG, e seu mergulho na Mercearia Paraopeba. É a partir daí que somos enfeitiçados pelo cheiro da goiabada no tacho e “por uma memória que nos sustente”. A chef mostra que uma cozinha bem elaborada, saborosa e visualmente atraente pode ser construída com fubá, ovo caipira, goiabada, doce de leite, amendoim e farinha de banana verde.

Helena Rizzo
Poética, a chef buscou o equilíbrio entre a introspecção e a expansão em sua apresentação Do ninho à mata. O ninho, como elemento de individualidade e introspecção frente à criatividade e coletividade provenientes da mata. Um falso ninho de ovos preparado com fios de mandioquinha e uma salada que leva mais de 20 folhas, ervas, matinhos e flores fizeram a chef transitar entre a sua infância e o coletivo atual, contemplando o ser sustentável.

Marcus Wareing
No Brasil, com alguns ingredientes e ervas desconhecidas, o chef faz a sua pintura, a sua arte, um enorme prato para ser dividido entre os comensais – abobrinhas, tomates, pimentões, queijo, jabuticabas, peixe, sal, pimenta, azeite, limão e um pesto de ervas. Essa é a essência da sustentabilidade – usar o que temos a mão.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Há sempre um copo de mar para um homem navegar

29ª Bienal de São Paulo
25 setembro - 12 dezembro 2010

Uma viagem, um mergulho no eu
Tão perto, tão longe; jogado a teus pés, preso aos meus
Olhos perscrutadores, seres inanimados, assustadores
Balançando de um lado para o outro, numa nau de cristais
Nuvens-luzes
Nascido, cuspido, introduzido
Preso ao invisível
Navegando num copo de mar