"Iam de jornada dois reverendissimos e nédios varatojanos, os quaes, segundo a regra da ordem, apenas levavam comsigo, para as despezas do transito, a benção do provincial e um cajado de zambujeiro para se abordoarem.
Pela volta do meio dia, começando a fome a apertar com elles, decidiram entrar num cazalinho que ficava a beira da estrada, a pedir, por caridade, ao lavrador, umas sopinhas ou coisa que o valesse.
Porém só encontraram no cazal uma rapariguita que lhes disse que o pae e a mãe andavam nos campos, e que não tinha para dar-lhes senão pão secco e agua do pote.
- Não importa, voltou um dos reverendos, que já deitara o rabo do olho pela cozinha e vira o que quer que fosse que não era pão secco; nós faremos um caldinho de pedras, para molharmos o pão...
- Caldo de pedras! exclamou a rapariga admirada.
- Sim, redarguiu o varatojano; é cá uma receita milagrosa que possuimos...Só precisamos de uma pouca de agua e duas pedras da calçada, bem lavadinhas...O resto fica por nossa conta...
A saloia, estupefacta, foi buscar dois calháus ao quintal, e, depois de os lavar cuidadosamente, apresentou-as ao frade. Este encheu uma panella d'agua, deitou-lhes as pedras para dentro e poz tudo ao lume, dizendo á pequena:
- Deite-lhe agora umas pedrinhas de sal.
A rapariga obedeceu.
Dentro em pouco a agua começou a ferver, e então o frade varatojano pegou uma colhér e fez menção de provar.
- Estão ainda durinhas...disse elle, não ha por ahi alguma verdura no quintal? As hervas ajudam a cozer os calháus...
- Temos couves, repolho, nabos, cenouras...respondeu a crédula rapariga.
- É exactamente o que precisamos...
A saloiasita sahiu á horta e voltou ajoujada com duas couves, um louro repolho, seis rubidas cenouras e dois opulentos nabos; o que, tudo lavado e preparado convenientemente, foi deitado pelo frade para dentro da marmita.
As pedras, porém, ainda estavam duras, no dizer do outro religioso, que as tacteou com um garfo.
- Ó servinha de Deus, não nos poderias dar uma rodita d'aquelle excellente paio, que alli vejo dependurado...a gordura amaciará as pedras num instante...
- Essa é boa, sr. padre! voltou a rapariga accedendo imediatamente ao pedido.
E o fradalhão cortou uma formidavel rodela de paio, que foi logo para dentro da panella.
Mas n'isto, o outro reverendo, olhando com seraphica expressão para um rubicundo prezunto, que estava na prateleira junto da chaminé, disse para o companheiro:
- Para os calháus ficarem macios como manteiga...só lhe faltava uma aparinha d'aquelle prezunto...
- O sr. padre, se precisa tambem de prezunto para adubar as pedras, póde tirar...
O frade não quiz ouvir mais nada; foi-se ao prezunto, tirou-lhe uma grossa fatia, que mergulhou logo na marmita.
- Muito bem. Esperemos que as pedras cozam...
E, volvida boa meia hora, o reverendo provou o caldo e exclamou:
- Está prompto, vamos para a mesa!
As pedras foram servidas n'um prato, sobre as hortaliças e ladeadas pelo paio e pelo prezunto. No caldo migaram os venerandos fradalhões dois pães saloios, e saborearam tudo em louvor de S. Francisco, deixando apenas...os calháus.
- Vossas reverendissimas não comem as pedras? perguntou a pequena, na melhor boa fé.
- Não, menina; a nossa apertada ordem não nos permitte senão que lhes bebamos os caldos...São magros, em verdade, mas com a penitencia é que se ganha o reino do céu!
- Amen! resmungou o outro reverendo.
- Louvado seja Deus! exclamou a innocente camponeza, cada vez mais admirada, ao vel-os partir; e engordam estes santos padres com tão fraco alimento!"
Receita de caldo de pedras da lavra do escriptor portuguez C. Marianno Fróes (fonte: A Mesa e a Sobremesa, de Rosaura Lins. Monteiro Lobato & Cia, 1928)