Montanari começa sua palestra dizendo que a origem não é a causa, pois uma semente só se transforma em uma planta caso exista o ambiente favorável, ou seja, a semente deve gerar raízes, que são o produto de um processo histórico que se dá em um ambiente favorável. Em adição, o processo histórico depende de tradições e inovações. O processo tradição+inovação é interativo e codependente.
A pasta na antiguidade: uma semente que não gerou raízes.
A cultura gastronômica Greco-romana conhecia uma massa de folha larga (lagana=lasagna) descrita em Apicius sem qualquer atenção especial (laganum). Na cultura mediterrânea antiga, a pasta era um gênero impensável, enquanto que os cereais forneciam basicamente dois produtos: o pão e a focaccia (calor seco), e as polentas (calor úmido). Essa lagana normalmente era frita ou cozida no forno, e inclusive, era descrita no século VII como um pão.
É no Sul da Itália (Sicília e Itália Meridional), durante a Idade Média, que a pasta se torna a raiz de uma cultura. É nessa região que vemos o reflexo da cultura gastronômica Greco-romana. E, mais precisamente na Sicília, vemos a assimilação da cultura alimentar árabe.
É na Idade Média, que a pasta passa pelo processo de miniaturização – e a partir de uma folha larga (a antiga lagana) há o surgimento de novos cortes e formatos, cada qual com os seus respectivos nomes e reconhecimento gastronômico. É na Idade Média que surgem as massas recheadas, gênero análogo às tortas recheadas (pastéis, empadas) já conhecidas dessa época.
O que vemos aqui? Cada inovação pressupõe a existência de um "terreno" favorável, de um "clima" cultural. Se a inovação é bem sucedida, ela logo se torna uma "tradição": o processo de miniaturização pressupõe a existência de uma folha de massa larga – a lagana – a mãe de todas as pastas. Essa folha larga ao ser miniaturizada (uma inovação) e recheada de acordo com o que já se fazia na época, pode nos proporcionar o surgimento de uma tradição. É assim que a soma de tradições nos fornece uma inovação, a qual dará origem, se bem sucedida, à uma nova tradição – no caso, as massas recheadas (massas rechedas=lagana+tortas).
Ou seja:
1. A raiz de um fenômeno histórico é o resultado de uma série de circunstâncias inovadoras que permite que a semente amadureça.
2. A raiz, por sua vez, ajuda a estabelecer uma tradição.
3. A tradição é baseada em inovações.
4. As invenções são baseadas em tradições.
Onde, as invenções e tradições se valorizam mutuamente.
E em qual desses processos entra a tecnologia? Segundo Montanari, não é correto dizer que a tecnologia serve apenas à inovação, mas sim que a tecnologia também responde à tradição.
A tecnologia nasce para responder a pergunta: como posso desenvolver melhor os meus objetivos? Objetivos culturalmente conhecidos porque "tradicionais" (Tradição → Tecnologia). Por exemplo, utensílios são desenvolvidos para cada objetivo – potes, panelas, frigideiras.
Até aqui Montanari traça a linha evolutiva da pasta, baseado nas tradições, inovações e tecnologias, que se entrelaçam de forma codependente. A partir da unificação política a pasta passa a representar a identidade italiana. Mas, até que ponto isso é verdade?
O que é mais italiano que um prato de spaghetti ao pomodoro?
a) O spaghetti: invenção árabe da Idade Média;
b) O tomate: origem americana;
c) Azeite de oliva e o alho: produtos do mediterrâneo;
d) Manjericão: um produto mediterrâneo, porém, da cozinha de hoje;
e) Pimenta (peperoncino): americano;
f) Parmigiano: uma invenção medieval dos séc. XII – XIII.
a) Cozinhar em água: técnica medieval;
b) Molho de tomate: especialidade espanhola;
c) Temperar com azeite: uso recente (séc. XX).
O que nos leva à conclusão de que as raízes dessa receita nada têm a ver com identidade, uma vez que as suas raízes estão fora da Itália.
Nesse sentido, apenas uma conclusão é possível: A identidade não corresponde às raízes – a identidade é o que nós somos aqui e agora.
As raízes são o que éramos, juntamente com o intercâmbio entre povos e culturas, que acabaram por permitir que as nossas raízes de desenvolvessem.
“Buscar nossas próprias raízes, sem preconceito, significa encontrar os outros que vivem em nós” (Massimo Montanari).
