Essa semana assisti um bate-papo entre chefs, escritores e jornalistas promovido para divulgar o livro
A Culinária Materialista, de Carlos Alberto Dória. Nesse bate-papo muito se falou sobre as funções de uma receita. Minha amiga Joyce estava comigo, e antecipando-se à mim, ela já escreveu um
texto no
Gastronómicas. Após ler o seu texto, decidi colocar aqui as minhas impressões:
Para que serve uma receita?
A receita nada mais é que um veículo para que uma informação seja passada, e como um romance, ela pode atingir de formas distintas quem a lê.
Se as receitas têm emoções? Não, elas não têm.
Mas de acordo com a forma como ela é trabalhada, o cozinheiro pode sim experimentar emoções (nele mesmo e em quem comerá o que ele fez).
Um romance tem emoção? Não, um pedaço de papel não tem sentimentos.
Mas o sentimento só surge a partir do momento que ele é lido, reinterpretado de acordo com a bagagem de vida de quem o lê, e só assim, o romance viverá.
Receitas e romances devem ser escritos, mas eles só viverão, e só cumprirão a sua função se alguém os ler. É uma troca, uma sinergia, talvez um parasitismo. Mas aquele pedaço de papel terá vida apenas a partir do momento que alguém der um pouco de sua vida a ele - uma co-existência temporária. Para que isso ocorra, as receitas devem ser bem escritas, caso contrário, será apenas um engodo. Muitos livros de receitas são inúteis, mal escritos, e apenas existem para nutrir o ego de alguém e o bolso de uma editora. Essas receitas não carregam nada nelas. Só mediocridade.
Não é fácil escrever uma receita, pois receita é fórmula química, e como na ciência, a receita deveria conter todas as variáveis e parâmetros que poderiam alterar o resultado final. Mas, lógico que dentro de nossas casas, na grande maioria dos restaurantes e nos cursos de gastronomia não trabalhamos com aparelhagem de alta precisão. Por esse motivo, cada receita, cada mão, cada pessoa, fazendo a mesma receita, encontrará resultados diferentes. Conseqüência das diferenças entre as facas, as espátulas, os aparelhos, a temperatura e umidade do dia, o forno e outras incontáveis variáveis. Em adição, e o mais importante, a variável humana imprimirá as suas particularidades àquela receita.
Acho uma grande bobagem dizer que a receita não serve para nada, e também acho uma grande tolice endeusar as receitas e os livros que as contém. Em um mundo de alta velocidade, precisamos sim das receitas. Depender da transmissão oral de conhecimento numa cidade como São Paulo seria loucura. Lógico que muito do que sabemos, escutamos de nossas mães e avós; mas um restaurante não sobreviverá de mamães e vovós, por mais romântica e doce que essa promessa pareça. Muitos chefes de cozinha famosos, que clamam que suas cozinhas foram construídas sobre os alicerces de gerações e gerações de antepassados, tem dentro de suas cozinhas receitas e fichas técnicas definindo o que representa cada mililitro e cada miligrama. Muitos chefes altamente técnicos, que andam rasgando receitas em aulas, mostram uma cozinha técnica, precisa e científica e a vende inclusive em seus livros, que, aliás, custam bem caro. Vemos aqui dois paradoxos da cozinha, ou melhor, duas lendas. Pois, (1) se o meu restaurante está alicerçado sobre a tradição oral e cada cozinheiro faz dos seus pratos poções mágicas, nas quais colocam pitadas do que bem entendem, como controlar os custos e estoque? (2) se podemos rasgar uma receita, por que vender um livro recheado delas?
A receita é importante para ilustrar uma sociedade e seus costumes. Uma receita é capaz de registrar ("formalizar/oficializar") o modo de vida de um povo naquele espaço de tempo.
Deve ser lida, entendida, e seguida ao pé da letra? Depende da receita, de como ela foi escrita, de quem a lê.
Em uma cirurgia, o médico pode se deparar com situações que fogem do atlas de anatomia e dos livros de fisiologia da faculdade, e aí deve entrar o bom senso e a experiência de quem empunha o bisturi ou, no caso do cozinheiro, a colher. Mas, sem o livro de anatomia ou fisiologia, a cirurgia não poderia nem ao menos começar, pois correríamos o risco de perder o coração no lugar do rim.
Sim, os livros de receitas devem existir, pois perpetuam nuances e vislumbres de conhecimentos que poderiam desaparecer ao longo do tempo.