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domingo, 15 de fevereiro de 2009

17 de Abril de 1933

Era uma segunda feira e o ar estava seco, mas quente. Nada demais para um típico dia de outono. Mas o que mais a incomodava e a deixava entristecida era o vento. E ventava bastante naquela manhã de segunda feira. Ela odiava o vento, pois achava que ele trazia notícias ruins. As janelas de madeira balançavam e ela, uma menina de 13 anos, laços de cetim rosa prendendo seus cabelos escuros e cacheados, se escondia na cozinha, achando que lá, perto das coisas mais gostosas da casa, estaria a salvo dos maus agouros trazidos pelas lufadas de vento.
Maria Evangelina estava entediada, não sabia o que fazer, e na sua cabeça de criança já passavam pensamentos de adultos. Com certeza, era o efeito do vento e do seu murmúrio pelas frestas das janelas.
Sua mãe já preparava o almoço da família. Algumas sobras do domingo estavam sendo reaproveitadas e o cheiro de cebolas invadia o ambiente. A menina gostava do cheiro da comida sendo feita e a cozinha era o cômodo que ela mais gostava de ficar.
O tédio dela começou a se dissipar, talvez o vento que tanto a incomodava foi capaz de levá-lo para longe.
No domingo, receberam a visita da sua madrinha, que, sabendo que a menina adorava fuçar o guarda-comida para brincar com os mantimentos, lhe trouxe de presente um livrinho de receitas. Agora que o vento levou para longe seus medos, a menina lembrou que havia deixado o seu presente lá no guarda-comida junto à lata de açúcar. E sem atrapalhar a mãe, que estava ao fogão, puxou uma cadeira, e usando-a como escada alcançou o seu livro cheio de receitas.
Pediu uma caneta para a mãe e com todo o cuidado do mundo, empunhou a caneta tinteiro que o pai havia recebido de presente do chefe ao final do ano.
- Menina! Tome cuidado, você sabe que o seu pai não gosta que mexam nas coisas dele!!
Nesse momento, Maria Evangelina fecha os olhos e mentalmente desenha o seu nome, as curvas das letras acompanhando as curvas dos cachos dos seus cabelos. Pronto! Já estou preparada!
Encosta o bico de pena no papel e começa a desenhar o seu nome cheio de curvas, altos e baixos. Logo no primeiro M de Maria, escapa mais tinta do que havia imaginado. Mas, agora que o vento está passando, cheia de coragem continua a desenhar o nome que tanto a orgulha. Afinal, ela tem o mesmo nome de sua avó. E assim, letra após letra, vagarosamente, desde o M borrado até o pontinho que finaliza o seu nome, termina o desenho.
E, dona e senhora do livro de receitas, deixa impressa a sua idade e o dia daquela segunda feira de uma ventania quente, 17 de Abril de 1933.



Bolos “Royal” de Canella

2 chicaras de farinha (230 grs.)
5 colheres de chá de Pó ROYAL (16 grs.)
1 colher de chá de sal
2 colheres de sopa de banha ou manteiga (28 grs.)
1/2 chicara de assucar (115 grs.)
1 colher de chá de canella (2 grs.)
4 colheres de sopa de passas sem sementes (113 grs.)
1/2 chicara de agua (1/8 de litro)
1 ovo

Toma-se a farinha, o Pó ROYAL e o sal e peneira-se juntamente. Dissolve-se então a manteiga ligeiramente com a ponta de uma faca, e ajunta-se vagarosamente á massa, bem como o ovo bem batido e a agua, até que a massa fique consistente. Estenda-se em uma mesa polvilhada de farinha até que fique fina; esfrega-se com manteiga derretida, polvilha-se com assucar e canella e junta-se as passas, que devem estar lavadas e escorridas. Enrola-se como para rolos de geléa e corta-se em pedaços do tamanho de 5 centimetros. Toma-se um taboleiro untado e collocam-se com as beiras cortadas para cima. Salpica-se com assucar e canella e põe-se a cozinhar em forno moderado durante 35 minutos mais ou menos. Esta massa dá para 8 bolos.

13 comentários:

  1. Me encantei com o texto sobre a Maria, belo,o bolo deve ser maravilhoso, não tenho o dom mas vou tentar fazer na semana!
    Bom domingo Chef Bergamo!
    Beijusss no coração!!

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  2. Que texto lindo!!! Esses bolinhos devem ser um enconto :) É o fermento que eu uso! Adorei o português antigo.

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  3. Muito boa! Também gosto muito de comprar livros de receita antigos, quando tenho a oportunidade. Já guardei a receita!
    Bjs

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  4. Que lindo...1ª passada por aqui mas já sei que vou voltar!
    Cheiros!

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  5. Gostei do texto, e os bolos parece-me bem saborosos. O fermento royal faz parte da nossa cultura, sempre me lembro dele, é uma marca de confiança. Também tenho um livro de receitas do fermento royal, mas nunca lhe escrevi o meu nome...

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  6. ainda bem que existe internet, o que seria de mim sem vc? :)
    bjão meu amigo

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  7. Lindas meninas/mulheres de volta dos almoços de família, enrolando sabores na memória inventada dos filhos/netos.
    Gostei do seu texto e do livrinho de receitas da royal!

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  8. Q reliquia tao especial...
    Parabens chef poeta!!!
    Beijocas,
    Carol

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  9. Que texto bonito. Na minha casa nunca falta uma latinha de fermento Royal. E o bolo deve ser ótimo.
    Bjs

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  10. Adorei a tua introdução.
    Os anos passam a correr.
    Óptimo bolo x

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  11. Uma gracinha a prosa sobre a Maria Evangelina! Também curto livros antigos e lembro-me com tristeza do livro de receitas da minha avó que uma empregada levou embora (que crime!). Vivo dando uma passada em sebos na área de culinária... esta rosca de canela e açucar está de dar água na boca!

    bjs

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