

A gastronomia tem dessas coisas, muitas vezes o que nos dá prazer traz destruição e caos. Vivemos um um momento no qual precisamos rever nossos conceitos morais e éticos - não só no campo das relações humanas, política e finanças, mas certamente no que se refere ao nosso estilo de vida cotidiano, que tornou-se altamente consumista e potencialmente destruidor de uns anos para cá. Dinheiro traz dinheiro, fama traz fama...e assim por diante...e, como não poderia deixar de ser...ganância traz destruição e miséria.
"Pensar verde" significa "pensar sustentável" - e aí entra o "comer consciente".
Estou longe de ser vegetariano, mas por viver em um país com pastos e gado de sobra, meu consumo de carne é baixíssimo, posso passar uma semana sem comer qualquer tipo de carne. Essa semana até brinquei dizendo que viveria de batatas, de tanto que aprecio esse ingrediente. Como carne quando dá vontade e não simplesmente por estar no prato. Não freqüento churrascarias há anos, acho um hábito pantagruélico - é contra os meus princípios ver as pessoas comendo carne até o estômago não aguentar mais. Nos jantares que ofereço em casa, a carne aparece com bastante timidez, talvez pelo fato de viver rodeado de pessoas que não apreciam esse ingrediente.
Porém, como na vida nada é tão simples, vivo um dilema cruel - sou professor de gastronomia - preciso conhecer, provar, testar - algumas vezes uma garfada basta...outras preciso de uma quantidade maior da matéria-prima. E, por motivos óbvios, nas aulas práticas é nossa função ensinar todas as técnicas culinárias, portanto, a carne está presente em grande parte das aulas.
Não posso mentir, adoro bacalhau, e hoje aproveitei para testar uma receita de bacalhau com natas usada em aula e que precisava de alguns últimos acertos. Mas já sabia do pecado que estava cometendo. Há alguns meses, nada sabia sobre esse assunto, mas conversando sobre receitas portuguesas com a
Mariana, ela sabiamente me alertou sobre o
perigo de extinção que ameaça a vida do
cod ou G
adus morhua, que é o peixe que dá origem ao tão apreciado bacalhau (nome dado ao peixe eviscerado, salgado e seco).
O consumo desenfreado e a pesca irracional fizeram com que a população de
cod caísse à níveis alarmantes, abaixo do mínimo necessário para sustentar a sobrevivência da espécie e após 14 anos de um controle rígido sobre a pesca do cod, os níveis ainda continuam baixos (
fonte: WWF).
Portanto - me sinto um hipócrita fazendo essa colocação - mas, com base nesses fatos, vejo que precisamos começar a comer com mais consciência - a saúde do planeta depende de nós.
A receita já está feita, o prato foi preparado e serviu para alimentar algumas pessoas, portanto, segue abaixo. Se a população mundial optasse pelo bacalhau somente nas datas festivas, mais ou menos como fazemos aqui no Brasil na Sexta Feira Santa, tenho certeza de que esse quadro seria revertido rapidamente.
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Bom, vamos à receita do bacalhau preparado pelas mãos de um brasileiro:
Bacalhau com Natas
Ingredientes
Bacalhau dessalgado 600 g
Azeite 200 ml
Alho picado 2 dentes
Cebola branca em rodelas 1 unidade
Batata sem casca em rodelas 400 g
Farinha de trigo 60 g
Manteiga sem sal 60 g
Leite integral 500 ml
Creme de leite 275 ml (no lugar das natas portuguesas)
Folha de louro 1 unidade
Cravo 2 unidades
Cebolinha a gosto (as receitas mais autênticas não levam esse ingrediente)
Farinha de pão (em quantidade suficiente para cobrir a preparação)
Sal, pimenta do reino branca e noz moscada
Modo de preparo
Molho bechamel modificado
1. Faça um roux com a farinha e a manteiga - leve os dois ingredientes ao fogo e cozinhe até ficar com aparência de areia molhada (mais ou menos uns 5 minutos).
2. Acrescente o leite frio e mexa com a ajuda de um fouet para impedir que se formem grumos.
3. Acrescente a folha de louro e os cravos.
4. Cozinhe em fogo baixo por aproximadamente 20 minutos (mexa de vez em quando).
5. Adicione o creme de leite e tempere com sal, pimenta e noz moscada (retire o louro e os cravos). Reserve.
Bacalhau, cebola e batatas
1. Ferva água suficiente para cobrir o bacalhau. Desligue o fogo, acrescente o bacalhau, tampe a panela e deixe por 20 minutos com o fogo desligado.
2. Escorra o bacalhau e separe-o em lascas.
3. Aqueça parte do azeite e sue o alho picado. Acrescente o bacalhau aos poucos e frite-o. Reserve.
4. No mesmo azeite (será necessário acrescentar mais) refoque a cebola fatiada até que fique macia e levemente dourada (ou alourada como dizem os portugueses).
5. Na mesma panela que fritou o bacalhau e a cebola, adicione o restante do azeite e frite as batatas até que fiquem macias. Não é necessário dourá-las.
Montagem
1. Combine o bacalhau com a cebola refogada, e adicione 3/4 do molho reservado. Adicione a cebolinha. Se necessário ajuste os temperos.
2. Em um refratário faça uma camada de batatas. Salpique um pouco de sal.
3. Despeje o creme de bacalhau.
4. Cubra com o restante do molho.
5. Salpique a farinha de pão.
6. Leve ao forno à uma temperatura alta até que adquira uma bela cor dourada (esse processo é facilitado em fornos que têm gratinador).
Coma com consciência!!