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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Pelo reencantamento do mundo

Já faz um bom tempo que tenho vontade de escrever sobre a comfort food, e mesmo sabendo que escrever sobre emoções não é nada fácil, vou tentar...talvez esse dia nublado me inspire nessa jornada.
O nome já é pomposo, e mesmo que não se entenda uma palavra de inglês; garanto que todos sabem o que é essa comida que traz conforto. Traz memórias, cheiros, gostos...por fim...lembranças cheias de emoções.
Comfort food é mais que comida, e ao colocarmos esse alimento na boca, um turbilhão de pensamentos corre pela nossa cabeça e coração. No sentido contrário à corrente da desconstrução do alimento, a comfort food tem alicerces profundos e familiares, e ao invés de criar pratos etéreos que se misturam ao ar, cria pratos que esquentam o estômago e o coração. Comfort food não é uma criação de um grupo seleto de mentes inquietas, mas sim a verdade que brota de mãos simples e experientes. De quem é essa comida? É da minha avó, da sua mãe, da tia do seu vizinho, da comadre da minha tia, de um parente distante...e por aí vai. Essa comida pode ser anônima, pode estar em um recorte velho de jornal esquecido dentro de algum livro ou no fundo de uma gaveta. Comfort food não tem regra, nem receita e não necessita de balança digital. Mas comfort food tem sentido, a comfort food é certa de seu objetivo, é como palavra de mãe: leva a blusa que hoje vai esfriar!!
Não me esqueço do mingau de maisena e dos bolinhos de chuva no meio da tarde – mesmo que sem chuva. Bolinhas de sacarina no apartamento da avó, do qual me lembro do cheiro como se eu estivesse lá nesse exato momento. O pastel da feira, a macarronada com tirinhas de carne, o purê de batata com carne moída nos dias de gripe. Fígado de galinha acebolado. Até o suco de laranja da minha infância tem um sabor especial que não encontro mais. Lembro dos sonhos recheados que o vendedor de rua trazia dentro de uma lata, e batia de porta em porta oferecendo aquelas delícias para ajudar no orçamento doméstico. Os mariscos no molho de tomate aos domingos, e os doces caseiros dos dias de pescaria no Riacho Grande. O abacate batido com leite. O vidro de Toddy, a lata de leite moça, os dadinhos dentro do armário e o Yakult na porta da geladeira. Gema de ovo com Nescau na Sessão da Tarde...e a Viagem ao Centro da Terra no quintal de casa.
A mágica da comfort food é que essa comida não pode ser reproduzida, e por mais simples que ela seja, ela sempre será única, pois emoção é pessoal, intransferível, singular.
A comfort food não precisa de muita coisa, e para existir só precisa de duas pessoas, uma que saiba doar e de outra que saiba receber com humildade – cabeça, coração, estômago abertos.
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Sempre coloco alguma foto nos posts que publico, mas como seria impossível reproduzir qualquer um desses pratos que falei aí em cima, preferi colocar um saci...pois lembro como se fosse ontem da minha avó dizendo para a gente entrar pra dentro de casa logo que escurecesse, pois o saci estava lá fora rondando. E, sabe o que é melhor? Eu acreditava.
Esse saci foi comprado no Parque da Água Branca durante o último Revelando São Paulo (de onde veio a frase que dá nome à esse post).

12 comentários:

  1. A cada lembrança que vc descrevia, um novo arrepio tomava conta de mim....
    Como eh bom relembrar coisas que ficaram marcadas em nossas vidas..que trazem alegria e saudade!

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  2. Adorei o seu texto e mesmo não sendo fácil descrever emoções, consegui perceber a sua quando fala dos pratos da sua infância!
    Melhor ainda...conseguiu despertar a minha emoção e as minhas lembranças! O arroz doce da minha avó materna, a barvaroise de ananás da minha mãe, os ovos estrelados com salpicão azeitonas e queijo curado dos pequenos almoços da minha avó paterna, os chupa-chupa vermelhos cobertos de bolacha de baunilha, os gelados de morango comidos à porta do liceu, no vendedor ambulante...
    Percebo esse conceito.
    Adoro Confort food! :)

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  3. tenho variassssss comfort food...
    *bolo gelado lembra minah irmã celia
    *pitanga lembra minha vo paterna
    *polenta minha vo maternas
    *bolinho de chuva minha irma sonia
    *bolo integral minha mamy
    *rabada meu pai


    saudades!!!!!!!

    Realmente esta palavra é muito comfortante!



    xx henrique teixeira

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  4. GENTE, ESTE AVATAR È SUA CARA MARCELO!

    RISOS

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  5. Bergamo, se vc queria emocionar... conseguiu!
    Parabéns pelo texto!

    abraço,

    Renata

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  6. Não há nada como uma comidinha que aqueça a alma da gente... Confesso que vou agora mesmo fazer um mingau de maisena para mim. Comfort food com sabor de infância...

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  7. Voltei atrás no tempo... numa altura em que tudo nos encantava e eramos felizes, leves e despreocupados :)
    Incrível como a infância é marcante, como as memórias remontam sempre a ela e ao conforto que isso nos trás ;)
    Belo texto... fiquei reencantada! Agora falta o resto do mundo :)

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  8. O seu "confort post" parece que deixou todo mundo a recordar as suas proprias comidinhas, que teriam este apelo emocional...
    E o seu saci me fez recordar o qto eu seguia à risca as dicas do Monteiro Lobato, através dos seus personagens, de como caçar um saci.
    E era assim: em dia de vento, qdo se formam aqueles redemoinhos que carregam as folhas, quase sempre isto é obra do Saci. Dai, vc tem que ser esperto e rapido para jogar uma peneira pintada com uma cruz, sobre o redemoinho e com muito cuidado, colocar o bocal de uma garrafa sob ela, para o Saci entrar.
    Entao fechar bem fechadinho.
    Dai, o Saci vai fazer tudo aquilo que vc pedir pra ele.
    E... penso que uma vez bem que chegou a dar certo!
    E isto tudo nao deixa de ser, tb, uma receita!
    Bjs!

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  9. " E recordar é viver!! "
    Confort food hoje não passa de um sonho lindo! Neste mundo de alimentos mutantes, de embalagens enganadoras, de Balanças gritantes e de escalas de colestrol cada vez mais apertadas... ui!!!, que saudades da Comida, da comidinha a sério!!, em que tudo era bom, quanto mais não fosse... para sossegar a alma!!!
    Xô, bicho mau, saci ou saculos... é noite... é hora do mingau!!!

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  10. Bergamo, postei seu bolo de banana... incrível, olha lá.

    abraço,

    renata

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  11. kkkkk minha avó tb contava essas histórias.

    Não conhecia o seu blog e já me senti super a vontade de entrar e ficar.
    Já coloquei até na sala de leitura do Manga.

    Eu sou comunicadora e logo logo se deus quiser estarei sendo a sua parceira de profissão. Primeiro quero fazer gestão e depois docência em Gastronomia na Hotec.
    Descobri o seu blog no blog da querida Renata Gaeta, para mim vai ser ótimo aprender com as suas palavras.

    Além do Manga eu tenho 2 blogs com fins educativos em gastrônomia:
    http://cucinaitalianabrasileira.blogspot.com/
    http://intercambioculinario.blogspot.com/

    Espero que goste.

    Abraço e parabéns!

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  12. Me emocionei muito com o post. Como é bom sentir que essas lembranças continuam doces em nossos corações e são os tijolinhos que construiram nossa base. Confortante também é sentir que tive a grata sorte de ser meu mestre, pois sempre acreditei e vi em você que ensinamentos realmente estão além de uma sala de aula. Obrigada... Beijos!

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